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Nas águas do jazz e das vanguardas

Inspirado no genial Charlie Parker, 'O Perseguidor', de Julio Cortázar - agora reeditado -, reflete seu interesse pelo surrealismo e os beatniks, depois trocado pela política, sob o signo de Cuba

CARLOS GRANÉS,

27 de julho de 2012 | 20h00

É paradoxal que o surrealismo, a vanguarda poética e artística que mais aversão teve ao romance, houvesse sido fonte de inspiração para alguns dos romancistas mais criativos e renovadores da América Latina. O primeiro encontro direto entre o surrealismo e as letras latino-americanas se deu em 1928, quando o poeta Robert Desnos viajou a Cuba para participar do 7.º Congresso de Imprensa Latina. Aquela viagem lhe permitiu satisfazer uma das fantasias surrealistas, encontrar as fontes da energia primitiva, e conhecer dois escritores brilhantes: Miguel Ángel Asturias e Alejo Carpentier. O encontro foi decisivo. Em pouco tempo, o escritor guatemalteco estava escrevendo romances com ascendência surrealista, e Carpentier, usando o passaporte de Desnos, fugia para Paris para evitar o cárcere e conhecer os vanguardistas. Desnos o apresentou a Breton, a Jacques Prévert e a Antonin Artaud; também lhe ensinou que o surrealismo, mais que uma nova corrente estética, era um projeto revolucionário com uma meta transcendente. Seu propósito era mudar as consciências, mudar a vida, e a forma de consegui-lo era abrir as portas da irracionalidade, saindo à rua em busca do acaso e do maravilhoso. Essa nova lógica destruiria a monotonia da vida burguesa e transformaria a existência em uma aventura espiritual.

Alejo Carpentier e Miguel Ángel Asturias aplicaram as ideias surrealistas para recriar literariamente a realidade latino-americana e inventar o real maravilhoso. Outro escritor, o argentino Julio Cortázar, optou por uma estratégia diferente. Ele também foi um grande admirador do surrealismo. Prova disso foram os três artigos que escreveu sobre a vanguarda entre 1948 e 1949, nos quais defendeu o irracionalismo como uma maneira de ampliar os limites da liberdade, a possibilidade de experimentar poeticamente a realidade, e a necessidade de um novo humanismo que contemplasse as necessidades mais profundas do ser humano. Contra o que diziam seus críticos, para Cortázar o surrealismo continuava vivo, ardendo nas consciências de alguns escritores dispostos a mostrar como escapar das pressões sociais e viver com plenitude.

Cortázar traiu seus mestres, contudo. Breton e Artaud diziam que a vida devia sair dos livros. Para ambos, a literatura era uma perda de tempo, um desperdício de imaginação que não tinha nenhuma consequência na realidade. Cortázar estava com eles em que viver era mais importante que escrever, mas acreditava que não havia diferença entre as duas atividades. Sua vida era a escrita, a escrita era a sua vida. Por isso, não viu nenhum problema em fantasiar existências literárias enriquecidas pelas atitudes surrealistas, sempre à beira da loucura e da morte, sempre iluminadas pelo maravilhoso, que teriam parecido inúteis a Breton e Artaud.

A busca desse elemento mágico foi uma das obsessões de Breton. Ele e seus companheiros saíam a percorrer Paris, deixando-se levar pelas sensações, as intuições e o acaso. Assim eles invocavam o relâmpago inesperado que iluminaria suas vidas. Breton mostrou esse anseio em Nadja (1928), o relato de seus encontros casuais com uma jovem enigmática, com quem viveu episódios mágicos que pareciam cenas oníricas. O mesmo fez Cortázar em O Jogo da Amarelinha (Rayuela, 1936), embora aqui já não se tratasse de peripécias autobiográficas, mas da busca existencial de Horacio Oliveira, um personagem saído da imaginação incandescente do escritor.

Durante sua estada em Paris, Oliveira conhece uma mulher tão misteriosa como Nadja - que, não por casualidade, se chama A Maga - com quem tem encontros ocasionais pela cidade. Mais que uma expressão de amor, sua relação é “uma forma de sonhar”, uma experimentação constante, um jogo absurdo. Juntos eles criam uma nova linguagem - o glíglico - e se entregam à aventura da liberdade, da criatividade e do retorno à infância, aquele período em que basta desenhar uma figura do jogo de amarelinha no chão e dar pequenos saltos pelas caixinhas até chegar ao céu.

Oliveira é um personagem apaixonado que busca algo. Algo que ele não encontra e que não lhe faz falta encontrar, porque é a busca que torna sua vida interessante. Percorrendo a cidade sem rumo, deixando-se levar pelos signos da noite, as frases de um vagabundo ou a luz de um beco, Oliveira converte sua vida em um projeto estético, em uma busca incessante de momentos vibrantes e poéticos.

Oliveira não é uma exceção na literatura de Cortázar. Johnny Carter, o protagonista de O Perseguidor (1959), também é um desajustado e insatisfeito que despreza o insípido mundo real e persegue algo impossível, sem nome, que ele só intui quando entra no mundo irracional da criação. Johnny Carter foi inspirado em Charlie Parker, o gênio do sax alto que, com sua música libérrima e espontânea, o bebop, deslumbrou a geração beat. Cortázar, que também foi amante do jazz e um trompetista amador, uniu nesse relato a fúria vitalista da geração beat e as perguntas existenciais dos surrealistas.

Quem é Johnny Carter? Qual é a fonte de sua genialidade? Essas são as perguntas a que tenta responder Bruno, seu biógrafo e amigo, sem encontrar uma resposta satisfatória. Como Oliveira, Johnny leva uma vida desregrada, desligada dos compromissos que a vida em sociedade impõe. Ele parece ansiar por outro mundo, algo como a super-realidade que buscavam os surrealistas onde o sonho e razão se confundem. Em certas ocasiões, ele tem estranhas alucinações que inspiram suas melhores peças. É então que ele rompe com todos os moldes, transgride os limites da realidade e se projeta para um mundo totalmente novo. Às vezes, ele parece estar a ponto de penetrar nessa outra dimensão. Não o consegue, contudo, e aí a gravação, que para todos foi uma obra-prima, se converte na prova do seu fracasso. Johnny nunca consegue agarrar aquilo que o persegue, que sempre escorrega por entre seus dedos.

Talvez a genialidade de Johnny se enraíze em sua atitude vital, nesse desprezo constante pelas cobranças da vida diária. Johnny é uma lebre que ataca o tigre, um louco que se agarra a um para-raio no meio da tempestade. Ele vive no limite, pondo em jogo sua existência sem nem se dar conta. É nesses momentos de euforia e vitalidade, nessa super-realidade tingida de alucinação, sonho e irracionalidade, que ele toca suas melhores peças.

Cortázar, como os surrealistas e os existencialistas, acreditou na possibilidade de uma revolução humanista que enalteceria a vida. Se fosse possível projetar a existência no campo da fantasia, ali, nesse espaço onde as dicotomias se esvaem, seria possível viver uma vida mais livre, lúdica e criativa. A fantasia que contamina alguns de seus contos era, como Nadja de Breton, uma maneira de mostrar o que poderia ser a vida se a vivêssemos de outra forma.

Assim pensava Cortázar até que um episódio transcendental bifurcou seu destino. Como ocorreu com alguns poetas beat que também amavam o jazz - o poeta LeRoi Jones, por exemplo -, o descobrimento da Revolução Cubana politizou sua visão do mundo e mudou sua maneira de conceber a literatura. Depois de viajar a Cuba, o escritor argentino iniciou uma lenta transformação. Pouco a pouco, ele deixou de buscar uma revolução cultural vanguardista que mudasse a vida e começou a defender as revoluções políticas que transformavam as sociedades. Cuba preencheu um vazio político que havia em sua vida e do qual antes não se envergonhava. A partir de 1968, ele se converteu em um militante ativo, convidado habitual a conferências e fóruns em apoio às revoluções que incendiavam a América Latina. Sua escrita também mudou. Em 1973, ele publicou o Livro de Manuel, um romance com estrutura vanguardista, mas com um conteúdo claramente ideológico. A fantasia deixava de iluminar as vida surrealistas de seus personagens e começava a avivar a utopia latino-americana. Mas qual projeto tinha mais opções de triunfar? O dos surrealistas que pretendia alterar as consciências e as vidas, ou o dos revolucionários que queriam transformar as estruturas do Estado? Cortázar morreu em 1984, quando ainda se vislumbrava a possibilidade de a revolução marxista transformar o mundo. Se tivesse vivido mais cinco anos, talvez houvesse percebido que a verdadeira revolução que mudou a vida no Ocidente foi outra, a vanguardista, a que incitava a ter uma existência beat, surrealista e apaixonada. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

CARLOS GRANÉS É ENSAÍSTA E DOUTOR EM ANTROPOLOGIA SOCIAL PELA UNIVERSIDADE COMPLUTENSE DE MADRI

Trecho

“Então você vai me dizer como pode ser que de repente sinto que o metrô para (...) e vejo que estamos em Saint-Germain-des-Près, que fica exatamente a um minuto e meio de Odéon. Apenas um minuto e meio pelo seu tempo (...). Como se pode pensar um quarto de hora em um minuto e meio?”

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