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Nas águas de Tati, o pai que pede perdão

Sylvain Chomet fala do roteiro que inspirou sua animação, O Mágico

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

27 de outubro de 2010 | 00h00

Seu primeiro curta - de animação -, A Velha Dama e os Pombos, foi indicado para o Oscar da categoria. O primeiro longa, As Bicicletas de Bellevue, também animado, concorreu ao prêmio da Academia de Hollywood - e, em São Paulo, virou cult, permanecendo longo tempo (anos!) em cartaz no Belas Artes. Sylvain Chomet está de volta. Chega primeiro à Mostra. O Mágico é distribuído no Brasil pela PlayArte, que promete - para breve - um lançamento com estilo. Chomet revisita o universo de Jacques Tati, criador de um personagem imortal, Mr. Hulot.

Em Berlim, em fevereiro, Chomet explicou ao repórter do Estado a gênese do seu filme. Os numerosos fãs de As Bicicletas devem-se lembrar que o filme já era um pouco uma declaração de amor a Tati. "Sempre tive um carinho muito grande por ele, por sua exigência, por seu talento especial. Apareciam cartazes dos filmes de Tati nos muros daquele filme, por exemplo. Mas eram pequenos toques, aqui e ali. Bastaram para me aproximar de Sophie Tatischeff. A filha de Jacques (Tati) me disse que tinha um roteiro deixado pelo pai e que gostaria que eu o filmasse. Mas ela morreu sem levar adiante o projeto, que retomei em homenagem aos dois. Achava que, se Tati não fizera o filme, devia ter seus motivos. Talvez o roteiro não fosse bom."

Novela. Nem era bem um roteiro - "Tati escreveu uma carta a Sophie e depois ampliou suas ideias, que foram ditadas para Jean-Claude Carrière. Ele escreveu uma novela, mais do que um roteiro, sem nenhum diálogo nem indicação técnica. Mas o material, longe de ser pobre, era muito rico e humano. Se Tati não chegou a filmá-lo, talvez não fosse nem por falta de tempo, mas porque o esforço teria de ser muito grande. O esforço emocional, bem entendido." Um mágico decadente vive à sombra do seu passado. Aceita tarefas cada vez menores, até que conhece a fã que muda sua vida para sempre. Justamente a fã. Tati, por meio dessa carta a Sophie, tentava recuperar seu afeto e respeito. Quando a garota nasceu, fruto da ligação do artista com uma dançarina de music hall, ele foi pressionado pela irmã a não reconhecê-la. A irmã, sabe-se lá por quê, o manteve afastado a vida inteira da filha. O projeto de O Mágico representou uma tentativa tardia de reconciliação.  

 

 

 

Confira a programação da Mostra

http://www.estadao.com.br/especiais/os-filmes-da-34-mostra-internacional-de-cinema,122566.htm

 

 

Trailers de filme da Mostra

http://tv.estadao.com.br/videos-tag,MOSTRA,Mostra,0.htm

Havia coisas que Chomet admite que eram difíceis, até inviáveis, no roteiro de Tati. "Conservei uns 70 por cento. O mágico se fazia acompanhar de galinhas. Não achava que era uma boa ideia e as substituí pelo coelho carnívoro. O clown suicida e o ventríloquo também são ideias minhas para tornar a história mais densa." Para desenvolver o projeto gráfico, Chomet criou com amigos um estúdio (Gjango) na Escócia. Não deu certo. "Trabalhamos com muito empenho em O Mágico, conscientes de que era um belo projeto no qual valia investir. Mas sou um artista, não um administrador de empresa. Para manter a estrutura funcionando, seria preciso fazer muita publicidade, animações de TV, essas coisas. Particularmente, não é o que me interessa. Nem a meus colaboradores."

Mais do que nas "Bicicletas", Chomet acredita que conseguiu desenvolver aqui um traço - um desenho - onírico com um pé na realidade. "Já era um pouco o que fazia o próprio Tati. M. Hulot passa meio distraído, como um sonâmbulo, mas ele se multiplica nos demais personagens em cena. É muito interessante." O repórter observa que a história da comédia evoluiu dos cômicos solitários (Charles Chaplin, Buster Keaston, Harold Lloyd) para as duplas (o Gordo e o Magro), os trios (Os Três Patetas) e até os quartetos (os Irmãos Marx). Tati foi o homem-massa, lutando para preservar sua individualidade. "É isso!", Chomet exclama. A declaração de amor de Tati à filha o interessava porque ele próprio tem uma filha. "Vê-la passar de menina a mulher está sendo uma das grandes gratificações da minha vida."

 

O MÁGICO

Cine TAM 4 - Hoje, 19h.

Cine Livraria Cultura 1 - Quarta (3/11), 22h40

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