Narrativa surge do peso dos sonho desfeitos

Blog. Acompanhe a cobertura completa da Flip. Personagens são náufragos de suas próprias histórias

VINICIUS JATOBÁ , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

08 Julho 2012 | 03h07

O livro Cidade Aberta é uma pérola como somente as estreias de ótimos escritores podem realmente ser: ao mesmo tempo que convida o leitor a comparar o texto com autores de sua eleição, claras influências, é uma evidente batalha entre uma singular voz original que deseja ter um lugar no mundo e a força da inescapável emulação de temas e de motivos que não encontram uma natural ressonância nos temas da narrativa apesar de serem importantes em outra esfera: na política de afirmação de seu autor no mundo da literatura.

Cidade Aberta começa como uma mal ajambrada colagem de temas de alta literatura da moda, como melancolia e alienação, e paga declarados tributos forçados e artificiais a autores como W. G. Sebald e Claudio Magris. No entanto, o importante nos livros de estreia é mais como acabam, e Cidade Aberta termina com uma voz envolvente: uma prosa relaxada e irônica, que abarca o material com mais malícia e desprendimento.

Em Cidade Aberta, um narrador melancólico, apegado à fortaleza de seu mundo de alta cultura, caminha por uma Manhattan caótica ainda soporizada pelos efeitos do 11 de Setembro. Enquanto caminha, como nos narradores de Magris e Sebald, recobra por meio de detalhes daquilo que vê relatos e conceitos e citações que revelam sua enorme erudição que jamais empolgam ou seduzem o leitor. Após alguns capítulos arrastados, contudo, Cole se abre para aquilo que importa na cidade de Nova York: as pessoas a habitam. O livro alça voo.

A cada bairro que atravessa em suas peregrinações, ele vai recuperando pequenas estórias de imigrantes, de culturas combalidas, de línguas constrangidas, dando voz ao colorido de todas essas pessoas das mais diversas regiões do mundo. Julius, o narrador do livro, logo chega ao coração de seu forte sentimento de alienação: sua própria história de nigeriano exilado.

Cidade Aberta, por cinco capítulos, paga tributos aos ídolos literários, e depois, recobra uma força emocional antes soterrada sob o peso das referências. Mais, até: Cole encontra seu tema - o peso dos sonhos desfeitos. As personagens que Julius encontra são náufragos em suas próprias histórias, habitantes de uma cidade ainda cicatrizando as feridas do 11/9 - e repleta de perguntas sem respostas.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.