Narrativa permeada por um toque sublime de humanidade

O sol ofusca e pode embotar a mente. Foi com o sol a pino que Merseault, personagem de O Estrangeiro de Albert Camus, matou um homem, foi condenado e terminou na guilhotina. De certa forma, essa referência está implícita em O Sol do Meio Dia, o belo filme de Eliane Caffé que estreia hoje. Só que, à diferença da tragédia sem remissão de Camus, metáfora da condição sem saída do homem trágico, temos aqui uma história de crime e castigo, mas também de remissão.

Crítica: Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

01 de outubro de 2010 | 00h00

A história se abre aos poucos ao espectador. Nas primeiras cenas, um personagem é libertado da prisão após cumprir pena. Artur (Luiz Carlos Vasconcelos) logo em seguida vai se encontrar com alguém que parece seu oposto, o maluquete Matuim (Chico Diaz). Artur é um personagem profundo, que carrega no rosto todas as suas contradições. Matuim é engraçado, mas também patético e simpático - essa carga de significados ambivalentes é sustentado por um grande trabalho de ator. Chico Diaz está magnífico - para variar.

Boa parte da história é consumida na viagem de ambos num barco caindo aos pedaços pela Amazônia. Outra parte, no relacionamento com uma mulher, que aparece por acaso na vida de ambos. Ciara (Claudia Assunção) dá novo impulso à narrativa. Muda seu rumo e lhe dá um toque sublime de humanidade no final. Num filme de referências, o gesto de Ciara não deixa de evocar o desfecho de uma obra-prima, A Aventura, de Michelangelo Antonioni. A mão sobre a cabeça do outro, numa oferta de conforto e compreensão.

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