Narrativa fútil sobre a decadência de uma diva

Credenciais não faltam ao compositor americano Rufus Wainwright. Pisou no palco pela primeira vez aos 13 anos e, desde então, tornou-se um dos mais célebres gênios precoces da música pop; aos 39, já acrescentou no currículo letras e músicas para sucessos do cinema tão distintos como Moulin Rouge, O Segredo de Brokeback Mountain e Shrek. Para Elton John, ele é "o maior autor de canções do planeta".

JOÃO LUIZ SAMPAIO , NOVA YORK, O Estado de S.Paulo

23 Fevereiro 2012 | 03h08

Em sua biografia conturbada, marcada por um estupro na adolescência, a homossexualidade assumida aos 14 anos, pela luta contra as drogas ou ainda o bebê que teve com a filha de Leonard Cohen, cabe também uma paixão "desmedida" pela ópera e as canções de autores como Schubert, que o teriam inspirado no processo de composição da ópera Prima Donna, sua nova obra, que teve badalada estreia americana no domingo, no teatro da Brooklyn Academy of Music, em Nova York.

Originalmente, Prima Donna deveria ter estreado em 2009, na Metropolitan Opera House, principal casa de óperas dos Estados Unidos e uma das mais importantes do mundo. No entanto, Wainwright se recusou a escrever o texto em inglês, preferindo o francês, e não aceitou que sua ópera não fosse a escolhida para abrir a temporada. O contrato foi desfeito, Prima Donna estreou em 2011 na Inglaterra e chegou agora aos Estados Unidos, trazendo na bagagem um punhado de elogiosas críticas e prêmios, concedidos pelos europeus.

O libreto, escrito pelo próprio compositor, em parceria com a dramaturga Bernadette Colomine, narra a história de uma soprano veterana que, anos depois de perder a voz durante uma apresentação, resolve voltar à ativa. Conhece um jovem jornalista, tenor amador, que a inspira e a faz se apaixonar novamente por sua arte e pela vida, apenas para descobrir horas depois que tudo não passou de um sonho - e que o recolhimento é seu único destino.

O ponto de partida - a figura do artista em decadência - está longe de ser original e a história relembra muito a narrada por Franco Zeffirelli no filme Callas Forever, ficção na qual a diva resolve voltar aos palcos, apaixona-se por um jovem tenor e, logo em seguida, percebe que não há como recuperar a juventude perdida. Ainda assim, um bom texto poderia trazer novas nuances ao conflito entre juventude e decadência, o que não acontece com o libreto repleto de clichês de Wainwright e Colomine.

É justo reconhecer que a história da ópera está repleta de obras de enredo problemático, com textos nem sempre inspirados, que beiram os limites do possível - ainda que se espere de um autor do início do século 21 um cuidado maior com a linguagem teatral. No entanto, o que em muitas óperas do século 19 salva e redimensiona um texto fraco, aqui não comparece - a música.

A linguagem neotonal de Wainwright se constrói a partir de uma melodia que reaparece ao longo de toda a partitura, sem que ele a retrabalhe à medida que a história se desenrola. De longe, sua música evoca, assim como a de muitos outros autores contemporâneos que têm se dedicado à ópera, o italiano Giacomo Puccini - mas sem a ousadia harmônica de obras como Madama Butterfly ou Turandot. Em termos estruturais, Prima Donna mostra que Wainwright conhece a linguagem operística, a articulação de árias, duetos, cenas de conjunto, em eficiente encadeamento narrativo. O problema, no final das contas, é que ele parece não ter muito a narrar.

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