Narrativa de Vermeer usa interior holandês e perspectiva chinesa

Análises: Antonio Gonçalves Filho

A.G.F., O Estado de S.Paulo

11 de dezembro de 2012 | 02h07

A oportunidade é rara. Ver pela primeira vez no Brasil uma tela de Vermeer é estar diante de um dos 35 quadros espalhados por 17 grandes museus do mundo. Ela está protegida por uma caixa de vidro, precaução mais do que necessária depois do roubo da tela O Concerto em Boston (avaliada em mais de US$ 200 milhões). Mulher de Azul Lendo Uma Carta pertence ao melhor período da produção de Vermeer, a década de 1660.

No último período de sua vida (ele morreu em 1675), pressionado pelas dívidas, o pintor holandês parecia lutar contra o tempo - e suas pinturas refletem essa ansiedade. São, inclusive, mais frias, embora recorrendo aos mesmos temas que o marcaram, como as cartas de amor em que o homem é invariavelmente sugerido in absentia.

Uma curiosidade que o historiador Timothy Brook revela no recém-lançado livro O Chapéu de Vermeer (Editora Record, 280 págs., R$ 47,90) é a influência da pintura chinesa em sua arte. Ele foi um dos primeiros pintores holandeses a ver a pintura dos asiáticos, o que teria marcado sua fixação no azul de Delft que os fabricantes de porcelana da cidade do pintor usavam, tentando imitar o azul dos chineses. Vermeer usava um pigmento azul e caro vindo do Afeganistão via Veneza (um azul ultramarino feito de lápis-lazúli triturado), o que o torna um dos primeiros pintores globalizados.

Não só a cor dos chineses marcou sua pintura. Historiadores de arte como Brook sugerem que sua preferência pelo fundo creme para dar destaque ao tecido azul (da tela em exposição no Masp, por exemplo), seu gosto pela perspectiva distorcida e primeiros planos ampliados traduzem a influência oriental. Há também a tendência de Vermeer deixar o fundo vazio, como nas pinturas chinesas, o que não era comum nas telas dos artista da geração anterior.

As pinturas de Vermeer são documentos da vida nos interiores das casas holandesas do século 17. São interiores construídos com objetos cuidadosamente dispostos pelo artista - alguns fora do seu alcance e emprestados por colecionadores abastados de seus quadros. No caso específico de Mulher de Azul Lendo Uma Carta, o ambiente "está consideravelmente desprovido de objetos, quando comparado a outros de Vermeer", observa o curador Teixeira Coelho. Mesmo nesse interior despojado, a narrativa visual é "ampla, bem arquitetada, magnificamente amarrada em sua própria coerência interior - com todos os paradoxos que encerra e que uma boa história deve conter", conclui./

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