Narciso nos tempos modernos

NEW JERSEY - A história da queda do general David Petraeus é tão rica em personagens, em voltas e viravoltas, que é difícil atribuir-lhe um significado, a não ser defini-lo como o mais recente exemplo da arrogância de um general. E, sem dúvida, é um capítulo novo na história da arrogância. Ao contrário de outros países, que experimentaram na carne as terríveis consequências do húbris militar, as ambições dos generais nunca chegaram a representar ameaça para a nação americana. Até onde sabemos, os EUA jamais correram o risco de golpe das Forças Armadas. Claro que, pela fragilidade dessa instituição tão vulnerável chamada democracia, a ameaça de um golpe militar ronda a imaginação do país e até foi tema de filmes, como a obra-prima de John Frankenheimer, Sete Dias de Maio.

Lee Siegel,

18 de novembro de 2012 | 00h26

 

Esse filme foi, talvez, inspirado no confronto entre o presidente Harry Truman e o general Douglas MacArthur, único episódio de que consigo me lembrar em que o país esteve perto de assistir à afirmação ilegítima da vontade militar na esfera política. MacArthur fez declarações que se contrapunham à opção de Truman por uma paz negociada com a Coreia do Norte - e com seus patrocinadores, os chineses -, defendendo que os EUA se lançassem numa guerra total contra os coreanos, aparentemente ambicionando um conflito direto com a China. Truman não teve escolha: tirou-o do comando das forças da ONU que, lideradas pelos EUA, combatiam na Coreia.

 

Outros generais manifestaram discordância com decisões tomadas por autoridades civis. O caso mais famoso foi do general George Patton, que queria enfrentar militarmente a URSS após o fim da 2.ª Guerra. Também Patton foi destituído do comando. Mas o maior escândalo em tempos modernos foi a controvérsia em que se envolveu o general William Westmoreland, que liderava as tropas americanas no Vietnã. Westmoreland foi acusado de subestimar o tamanho do Exército norte-vietnamita com o objetivo de convencer a população americana de que a guerra podia ser vencida, o que justificaria o envio de mais tropas americanas ao Vietnã. O general processou a CBS, que veiculara as acusações, mas depois concordou com um simples pedido de desculpas. As denúncias nunca foram desmentidas e o aparente logro a que ele submeteu os americanos abriu uma ferida permanente na consciência nacional.

 

Generais que vieram depois tentaram seguir os passos de Dwight D. Eisenhower, que abandonou a farda para se candidatar à Presidência e ser eleito. Mas, com exceção dele, nenhum outro general se elegeu presidente desde que, em 1869, após servir durante a Guerra Civil, Ulysses S. Grant chegou à Casa Branca. Wesley Clark concorreu em 2004, mas não conseguiu nem passar das primárias democratas. Colin Powell chegou a cogitar lançar-se candidato, mas desistiu.

 

Agora, entra em cena David Petraeus. O que dá à ambição de Petraeus um caráter contemporâneo é que ela não vai além de sua vaidade. Ao que parece, o soldado desejou progredir na carreira não pelo desejo de tornar-se líder, ou para imprimir sua vontade aos acontecimentos, mas apenas porque queria progredir na carreira.

 

Petraeus casou-se com a filha do superintendente da academia de West Point e subiu rapidamente na hierarquia. Mas foi só na primeira Guerra do Golfo, ao comandar a 101.ª Divisão de Paraquedistas no posto de major-general, ele teve seu batismo no campo de batalha. Não sei dos feitos de Petraeus durante essa guerra, embora tenha uma porção de medalhas no peito. Pelo que conheço dos generais, imagino que tenha passado a maior parte do tempo em relativa segurança, bem longe da linha de frente. Os generais, mesmo os majores-generais, não costumam participar diretamente dos combates.

 

Por outro lado, como comandante chefe no Iraque, Petraeus implementou mudança radical na atuação das forças americanas, que tornou o Iraque um lugar mais estável do que era quando ele lá chegou. Em que medida a mudança foi obra dele ou dos homens que o cercavam, ou de pressões políticas inteligentes exercidas por Obama - que, ao contrário das recomendações de Petraeus, queria sair do Iraque o mais rapidamente possível -, isso não sei dizer.

 

Evidente é que Obama desarticulou as ambições presidenciais de Petraeus ao lhe oferecer o cargo de diretor da CIA. E Petraeus, que parece ser movido pelo impulso de correr atrás de galardões, sejam eles quais forem, aceitou de imediato um posto para o qual não tinha a menor qualificação.

 

A CIA e as Forças Armadas são duas instituições cultural, política e estruturalmente tão diferentes que parecem pertencer a planetas distintos. Mas prestígio é prestígio e, como diretor da CIA, Petraeus se instalou no centro do poder social de Washington. É interessante que um dos agentes de sua queda seja uma mulher chamada Jill Kelley, cujo vínculo com os militares se deve à sua condição de socialite-mor da cidade de Tampa, na Flórida, onde ela conheceu Petraeus e outros generais que acorriam em bando às suas festas elegantes.

 

A arrogância de MacArthur, de Patton e de Westmoreland nasceu de suas visões estratégicas, por mais limitadas que fossem. A arrogância mais modesta de Eisenhower, de Clark e de Powell decorreu de suas visões políticas. Já a arrogância de Petraeus, Narciso dos tempos modernos, ficou circunscrita à vaidade de Petraeus. Assim como Narciso se apaixonou por seu reflexo, o mesmo aconteceu com Petraeus. Como John Edwards, que pisou em falso ao ter um affair com a mulher que produzia um vídeo biográfico sobre ele, Petraeus mergulhou de cabeça na imagem de si mesmo que uma mulher chamada Paula Broadway tratou de inflar, lustrar. É bem possível que nestes tempos em que as pessoas se rendem ao egoísmo e à obsessão com o próprio umbigo, biógrafos e biógrafas sejam as verdadeiras serpentes à solta no jardim.

 

Petraeus não tramou nenhum golpe, não cobiçou poder político, não se envolveu em maquinações para implementar uma visão particular de segurança nacional. O que precipitou sua queda foi só o desejo de ouvir, vezes sem conta, os sussurros de uma voz que o retratava como herói, um modelo de masculinidade.

 

Terá sido essa uma compensação para um general - apesar das condecorações que gosta de ostentar - que mandou tantos homens e mulheres para a morte, embora pouco estivesse à frente das batalhas? Um general cujas ambições não vão muito além do espelho do quarto é uma bênção para a democracia. Mas para o general em si, é patético.

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