Nara Roesler expõe Barcellos, Johas e Castillo

O trabalho de Vera Chaves Barcellos, Regina Johas e Neno del Castillo, expostos em três exposições simultâneas que serão inauguradas nesta quinta-feira na galeria Nara Roesler, são marcados por uma grande coerência. Seguindo trajetórias bem pessoais, os artistas selecionados pelo crítico Agnaldo Farias pertencem a diferentes gerações, nasceram e viveram em diferentes cidades, mas construíram sólidas pesquisas plásticas que às vezes parecem dialogar entre elas.A principal atração do trio é a gaúcha Vera Chaves Barcellos, que iniciou sua carreira na década de 60, tornou-se uma das pioneiras no uso experimental da fotografia e participou de vários momentos importantes da história da arte brasileira das últimas décadas, tendo inclusive representado o Brasil na Bienal de Veneza em 1976. A artista, que há 14 anos se divide entre Porto Alegre e Barcelona, mostra duas obras da série Nadadores no mezzanino da galeria.Além da série de 80 imagens, construídas a partir da manipulação por computador de fotos de nadadores à beira da piscina ou mergulhando, retiradas de um jornal (obtendo desta forma variações de movimento e inversões de cor, mas preservando sua origem pouco nobre), Vera também exibe as mesmas imagens projetadas sobre um "aquário", obtendo um efeito quase hipnótico. Outra obra do mesmo grupo pode ser vista no Sesc Pompéia na exposição Território Expandido II: A Foto.A imagem do nadador não é recente em sua obra, tendo surgido ainda nos anos 80 e sendo também o elemento primordial de sua última individual em São Paulo, realizada no Centro Cultural São Paulo em 1995. Partindo de uma certa "nostalgia da pintura" que a faz explorar a oposição entre as cores e brincando com a idéia de seriação da imagem, ela estabelece um jogo conceitual sem fim e bastante sedutor.Os processos de repetição e seriação também são os principais elementos constitutivos da obra de Regina Johas e Neno del Castillo, que dividem o térreo da galeria.Ao entrar no prédio, o espectador depara-se com a série de desenhos negros que o artista carioca cria usando bastão oleoso e que são tão densos de matéria que é necessário alguns instantes de observação para que se notem as especificidades de cada um desses trabalhos.Apesar de ter um caráter subjetivo, decorrente do processo de execução desses desenhos, a espontaneidade não é o objetivo de Castillo. "Trabalho com tensões, com um ritmo mecânico que provoca erros, ruídos." São as pequenas nesgas de papel branco que surgem entre as densas manchas negras que dão o título, Ruídos, ao trabalho.Neno define este seu trabalho como uma espécie de minimalismo invertido -aliás, considera Richard Serra uma de suas principais referências. Ele parte de um módulo comum, "um tracinho que arranca e reprime", que não tem nem a seriedade do construtivismo nem a liberdade expressiva. Aliás, foi essa busca de um caminho alternativo à valorização excessiva do gesto que vigorou na década de 80 que o levou a buscar novos ares e morar três anos em Nova York.São muitas as coincidências biográficas e as referências comuns entre Castillo e Regina Johas. Assim como seu colega carioca, a artista paulista sentiu necessidade de sair do País em busca de uma formação mais sólida e de novos ares, vivendo por seis anos em Colônia, na Alemanha. Se a mostra da Galeria Nara Roesler é a primeira individual feita na cidade por Castillo, trata-se da primeira mostra em um espaço comercial feita por Regina.Jovens - Atualmente professora da Faap, onde se formou com grandes nomes da Geração Oitenta (como Leda Catunda, Mônica Nador e Ana Maria Tavares, que também inaugura exposição esta noite), ela vê com graça o fato de ter sido apresentada entre os jovens emergentes ao retornar ao País, no início dos anos 80.Ela também carrega uma herança minimalista e vê em Sol Lewitt uma importante herança. Mas apesar de lidar com formas fixas e com a repetição de padrões estáveis, ela introduz em sua obra uma certa ironia, tratando com um pouco de irreverência a herança concreta e neoconcreta. Nos arranjos que faz com elementos recortados em vinil, como a peça Hearthflower, ela resgata a memória lúdica da série dos Bichos, de Lygia Clark, mas sem a busca de liberdade e interação que lhes é característica.Regina pode partir de referências da história da arte ou de elementos banais, como o jogo para elaborar uma composição que se situa entre o rigor da forma e a sedução do ornamento, mas o eixo principal de sua pesquisa plástica é a relação entre forma e espaço. "Não há gesto nessas ´pinturas´ e ´esculturas´ de Regina Johas, há apenas rigor e método", conclui Farias.Essa característica leva o curador a estabelecer um paralelo entre a obra da artista e a arquitetura. Aliás, os Castelos que constrói com pequenas peças de bronze (que têm uma grande densidade que se opõem ao caráter diáfano das obras de parede) remem indiscutivelmente aos horizontes urbanos.Vera Chaves Barcellos, Regina Johas e Neno del Castillo - De segunda a sexta, das 10 às 19 horas; sábado, das 11 às 15 horas. Galeria Nara Roesler. Avenida Europa, 655, tel. 3063-2344. Até 4/8. Abertura, 13/7 às 21 h

Agencia Estado,

12 de julho de 2000 | 19h33

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