Nara, cantora fundamental

Suave e sofisticada. A serviço da letra da canção e cercada de maravilhosos músicos, arranjadores, compositores. Sempre do melhor. Aloysio de Oliveira a fez estrear em disco no lendário selo Elenco. Esteve no nascimento da bossa nova, recebendo, acolhendo, facilitando e assim que a bossa chegou nos discos já estava em outra. Foi tropicalista de primeira hora e mesmo cantando Chico Buarque não andou nas ruas contra a guitarra. Do pop foi pro samba de Zé Kéti e nunca se acomodou. Nara Leão foi um furacão.

Patrícia Palumbo & MPB, O Estado de S.Paulo

11 de fevereiro de 2012 | 03h08

Em contraste com sua aparência frágil e voz pequena, nessa mulher sobravam atitude e opinião. Recusou o título de musa da bossa nova o quanto pode e causou polêmica defendendo o samba e as letras mais engajadas já no começo da carreira. Vendia muitos discos, era um sucesso nacional e o público a identificava com a turma do cantinho e o violão. Já na estreia tinha certeza do direito de cantar o que quisesse, mas é inegável que seu jeito, independente do gênero, é o mais bossa nova de todos. Em 64, um jornalista da revista Fatos e Fotos, José Carlos de Oliveira, escreveu numa crônica sobre Nara: "Você não ilude ninguém, Nara, pois qualquer coisa que você cante vem cheia de mar, de flor, de Copacabana". Ela foi, sem querer, a primeira namoradinha do Brasil.

De verdade mesmo namorou na adolescência Roberto Menescal, parceiro de toda vida e pra quem apresentou o jazz. Depois Ronaldo Bôscoli, que fez pra ela o Lobo Bobo. Bôscoli a perdeu depois de uma turnê pela América Latina com Maysa. Essa, de olho e de caso com ele, armou uma chegada bombástica no Santos Dumont com jornalistas esperando por eles na pista. De braço dado com o noivo de Nara anunciou que iria se casar com ele. Mais uma das histórias saborosas que conta Sergio Cabral na definitiva biografia de Nara Leão, um livro indispensável pra entender vida e obra dessa grande mulher.

Mas voltando ao Canto Livre de Nara Leão (nome de seu segundo LP em 1965 com direção musical de Luiz Eça), seu jeito tímido de cantar foi evoluindo e se fortalecendo sempre atrelado ao discurso. Cuidadosa e aplicada, teve aulas de música com o maestro Moacir Santos. Gostava da intensidade das canções mas deixava que a letra se impusesse por si. Nas audições com gravadoras sempre levava Insensatez, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes. Com a dramaticidade no ponto certo era suave sempre. Mesmo cantando "eu , você, nós dois sozinhos nesse bar a meia luz…" em Fotografia, de Tom Jobim, que gravou em 71 em Paris com Roberto Menescal ao violão. Essa música de 1967, do LP A Certain Mr.Jobim, foi gravada por Dick Farney, Sylvia Telles, Elis Regina, Astrud Gilberto e depois por Mariana de Moraes, Rosa Passos, Gal Costa, Paula Morelenbaum… um clássico.

O repertório de Nara Leão apontava tendências e esteve sempre à frente, antecipando movimentos e lançando compositores. No Tropicalismo gravou Lindonéia, feita a seu pedido por Caetano e Gil sobre um quadro de Rubens Gershmann. A faixa entrou no Panis et Circensis e no LP de Nara todo arranjado por Rogério Duprat em 68. Nesse disco, ela misturava Mamãe Coragem, de Caetano Veloso e Torquato Neto, com Odeon, de Ernesto Nazareth, que ganhou letra de Vinicius de Moraes a pedido da cantora. Paulinho da Viola fez seu primeiro LP nesse mesmo ano e já em 69 ganhava de Nara a gravação de Coisas do Mundo Minha Nega. O samba abria o disco de Nara Leão e dava nome ao LP. Coisas do Mundo trazia também Fez Bobagem, de Assis Valente, sucesso na voz da grande Aracy de Almeida - a Araca, Duquesa do Encantado (abro parênteses pra lembrar do livro de Hermínio Bello de Carvalho que homenageia a cantora preferida de Noel Rosa e que deve fazer parte de toda biblioteca básica de um admirador da música brasileira, porque Aracy foi grande!).

Tárik de Souza escreveu muito bem sobre a sensibilidade de Nara Leão: "Descobriu novatos, renovou esquecidos… e abriu a mente da multidão que a ouvia."

Numa prova de Psicologia, faculdade que cursou em 1974, Nara escreveu sobre o uso da linguagem: "Pela palavra a comunicação se faz, mesmo que aquela encubra verdadeiros sentimentos. A palavra muitas vezes é a saída. Mas ainda estamos longe de usar a linguagem como ela merece."

Nara Leão é parte de uma linhagem nobre dentro da história da nossa música. Intérprete inteligente nas escolhas, musicalmente inovadora, afetiva e convicta.

Ele teria feito 70 anos agora em 19 de janeiro. Morreu em 89 deixando uma obra memorável que recomendo ouvir. Em 2001 a Universal lançou uma caixa referência com seus primeiros discos e Fernanda Takai fez o lindo e premiado tributo Onde Brilhem os Olhos Seus, em 2007. O site oficial de Nara Leão traz coisas incríveis como essa prova de Psicologia que citei aqui e toda sua discografia (www.naraleao.com.br). Mesmo que Nara Leão não toque mais no rádio, é fundamental ouvi-la. Talvez até por isso mesmo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.