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Carnaval continua como uma baforada de liberdade dentro de um sistema hiper-regrado

Roberto DaMatta, O Estado de S. Paulo

26 de fevereiro de 2020 | 03h00

Exceto, talvez, no carnaval, quando a sociedade se desnuda, mas mesmo quando tenta esconder os costumes de uma festa irreverente, mostra suas meias furadas. Cabe perguntar: seria possível virar humano sem esconder alguma coisa? 

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O carnaval, oficialmente acabado, é uma espécie de “bomba simbólica” capaz de explodir o que não podia ser exibido. Por exemplo: as batucadas das senzalas, periferias e morros; a beleza dos negros – escravos transformados em criados da casa e muitos integrantes marginal da família. A criatividade e a animação sorridente dos pobres. Dos explorados e favelados vestidos de deuses exibindo uma animação teoricamente contraditória e absurda posto que deveriam estar em permanente estado de indignação e revolta mas, ao contrário, estão em sintonia com a hipocrisia dos governantes e dos “bens de vida” que não suprimiram a festa mas a apoiam nas doses certas do autoritarismo à brasileira, no melhor estilo “nem tanto ao mar, nem tanto à terra...”

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O carnaval vivi, pesquisei e apresentei como um problema sociológico em muitos ensaios e, no livro Carnavais, Malandros e Heróis (de 1979), continua como uma baforada de liberdade e igualdade dentro de um sistema hiper-regrado ao ponto do imobilismo, do desperdício e do paradoxo legal (uma norma impede uma outra). Um sistema de índole repressiva, escravocrata e inquisitorial, pois, no Brasil, nenhuma região escapou desse laço abominável entre senhores-donos e multidões de pessoas concebidas como coisas que, além de estrangeiros, eram coisas e mortos sociais, conforme demonstra Orlando Patterson num livro modelar (Escravidão e Morte Social, Harvard 1982; tradução da Edusp, 2008). 

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Sociedades tribais e ágrafas – “fiéis a si mesmas”, como bem diz Lévi-Strauss –, cujos cotidianos oscilam entre rotinas e ritos complementares, produzem essas “festas de reversão” nas quais o mundo fica momentaneamente de cabeça para baixo.

M. Bakhtin chama isso de uma outra vida, pois a inversão das rotinas produz, como mostra o carnaval, uma renovação. Nestes cerimoniais, pode-se também alumbrar o fundo do sistema desde que ele seja devidamente fantasiado e motivado a rir de si mesmo. Pois, no nosso caso, o fundo é feio e miserável (sem água, luz, saneamento e educação), é assolado por bandidos da ordem (milicianos e políticos populistas), e governado por malandros e batedores de carteira. A fantasia e o riso, bem como as músicas satíricas, fazem tudo, menos ameaçar a ordem vigente.

Um dos pontos mais interessantes dessas festas é que elas são ao mesmo tempo utópicas, pois têm uma dimensão rebelde e até mesmo revolucionária, e instrumentos importantes de manutenção da ordem. Daí decorre a premissa de que não podem durar muito. Como as anedotas, o carnaval tem espaço e tempo regulados e ancorado no calendário sagrado da Igreja Católica. 

Muitos pensam no carnaval como uma festa brasileira quando, na verdade, ele é uma criação tipicamente católica – como o purgatório e a confissão. 

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A Igreja Católica explica o tempo dessa bomba simbólica cuja legitimidade se espreme entre a alegria santificada e festiva do Advento (Deus, como Cristo, nasce de uma mulher e, como Salvador vive a nossa humanidade) e a Quaresma que, nesta Quarta-Feira de Cinzas, inaugura sua paixão, seu sacrifício e sua morte na cruz. 

Marginalizado entre uma multiplicação, pois o nascimento faz de um, dois – mãe e filho – numa celebração da pluralidade da vida; e um tempo de indecisão (de Pilatos), negação (de Pedro) e, finalmente de luto e morte; ocorre o carnaval. 

O “abandonar a carne” como uma metáfora dos desejos mundanos. Depois da exultação da vida do Natal que promove alegria, troca de presentes, comidas especiais, religações amorosas com família e com a casa, numa mesa na qual come-se da mesma comida na comensalidade da comunhão, chega a formalidade imóvel da morte com seus requisitos de disciplina, luto e controle do riso que, na Quaresma, vira consternação e choro.

E, com ela, os tormentos e maluquices da “vida real” feita – valha-me, Deus! – de economia e política.

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