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Não vacile, vacine

E se o convencimento da população para tomar a vacina contra a covid-19 fosse por meio do marketing?

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

02 de novembro de 2020 | 03h00

Vamos imaginar que a tese sobre a não obrigatoriedade da população se vacinar contra a covid-19 venceu o embate político e jurídico. Pode acontecer, não é?

Se esse for o resultado, uma das estratégias possíveis será a do convencimento por meio do marketing. Trago aqui o diálogo entre dois famosos publicitários, especialmente contratados para criar comerciais, jingles e ações pró-vacina.

– “Não vacile, vacine.”

– Achei jovem demais. Minha avó não vai comprar um slogan com a palavra “vacile”.

– “Por obséquio, permita-me injetar esse preparado em sua mui digníssima pessoa.” Gostou desse?

– Vai pro inferno!

– Isso, inferno! Precisamos de uma campanha para o público evangélico. 

– Visualize essa cena: a gente abre com São Pedro na frente de um portão dourado. Ele está conferindo as fichas dos recém-chegados ao céu. Ele parabeniza o primeiro, diz que está tudo certo e o portão dourado se abre. Sobe som, uma música celestial. O próximo falecido se apresenta. São Pedro pergunta se ele tomou a vacina contra a covid. O sujeito diz que não, que nunca acreditou nessa bobagem, que a China é isso e aquilo...Daí, São Pedro faz uma cara de desaprovação, meio engraçadão, estilo Escolinha do Professor Raimundo, e aperta um botão de emergência. Um alçapão se abre e o negacionista cai em uma espécie de caldeirão do inferno. Close no sorriso de satisfação do diabo. Heavy Metal. Bang!

– Idiota. Você não entende nada de religião. Os evangélicos não cultuam os santos. São Pedro teria mais apelo entre os católicos.

– Então, mudamos um pouco o foco...

– Não, não, para os católicos temos aquele jingle do padre cantor: “Erguei as mãos e tome a vacina, erguei as mãos e tome a vacina...” 

– Não faz sentido, “erguer as mãos para tomar uma vacina”. Você, acho, levanta a manga da camisa e mostra o braço.

– Pô, mas “erguei a manga da camisa para tomar a vacina” é impossível de encaixar em uma música.

– E se a gente pedisse para a vacina ser no bumbum? Daí, a gente contrata o Compadre Washington pra ficar repetindo: “Que abundância, que abundância...”. Cara, aí a gente marca uma live com a formação original do É o Tchan. Sou um gênio. 

– Vou checar se o marketing pode definir o lugar da vacina. O bumbum tem mais apelo publicitário mesmo.

– Ah, você conseguiu a dupla sertaneja para a campanha?

– Quase. Tava tudo certo, mas daí a campanha antivacina chegou com mais dinheiro e eles mudaram suas convicções.

– Pela quinta vez...

– Ainda tô procurando o Zé Gotinha para a ação com as crianças. Um Zé Gotinha apresentando o seu primo moderninho, o Zé Agulhinha. 

– Esquece...O Zé Gotinha está em uma clínica de reabilitação. Não é boa ideia trazer o Zé Agulhinha pra perto dele. 

– Já fechei a parceria com o aplicativo de paquera. Os usuários vão precisar informar se estão vacinados ou não. Os vacinados conseguem muito mais matchs que os não vacinados. Sucesso.

– O comercial do garoto sendo o último escolhido para o time de futebol na aula de educação física porque não foi vacinado já foi gravado?

– Sim. Mas temos que focar nos vouchers. Quem tomar a vacina pode escolher entre um vale gim-tônica ou um jogo de panelas. 

– Descontos em motel. Não podemos esquecer do desconto em motel.

– Tem aquelas parcerias com as agências de viagem e companhias aéreas. Quem for vacinado vai poder escolher se voa na janelinha ou no corredor. Agora, quem não se vacinar, azar, fica com a poltrona do meio.

– Não podemos esquecer dos influencers, youtubers e a rapaziada do Twitter. 

– Hashtag seja responsável, hashtag respeite a vida, hashtag empatia, hashtag eu acredito na ciência...

– Sim, hashtag não seja burro... Cara, como alguém pode ser contra tomar uma vacina contra a covid. Uma vacina que vai fazer a nossa vida voltar ao normal e...

(Toca o celular)

– Alô...Sim, sim... Não sei. Vou informar... (Desliga o celular). Era o empresário da dupla sertaneja. Por um aumento de 20% no cachê, eles estão dispostos a mudar de convicção pela sexta vez. 

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