Gabriela Biló/Estadão
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Não seja burro

'Amanhã, 7 de setembro, não caia na conversa de quem quer transformar uma efeméride em um inferno. Dez entre dez brasileiros preferem feijão. Fuzil, não'

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

06 de setembro de 2021 | 03h00

Amanhã, 7 de setembro, convoco todos os meus quatro leitores a não serem burros. Eu sei, nem sempre é fácil, eu mesmo, às vezes, me farto de um saboroso capim. Mas tento, humildemente, não normalizar essa dieta.

Amanhã, 7 de setembro, não caia na conversa de quem quer transformar uma efeméride em um inferno. Dez entre dez brasileiros preferem feijão. Fuzil, não.

Se sentir um siricutico golpista subindo pelas paredes do seu intestino, respire e tome um chazinho. Caso os sintomas persistirem, procure um médico (um que não seja negacionista, por favor). Ainda é tempo de se tratar. Ou melhor, de se vacinar. 

A beleza da democracia é que ela é um quebra-cabeça infinito (algo que funcionaria em um conto Jorge Luis Borges). Como um organismo vivo, esse quebra-cabeça nunca está completamente pronto. Novas peças são adicionadas e novas paisagens surgem em lugares inesperados. O desafio é o exercício, a esperança, a crença em procurar, encaixar e seguir em frente. Não existe mérito nenhum em virar a mesa ou jogar todas as peças para o alto. Se for fazer algo amanhã, faça em defesa deste quebra-cabeça.

Mas não seja burro. Não seja o jumento que sonha em ser o cavalo pintado no quadro de Pedro Américo.

Um cavalo é só um cavalo. Um jumento é só um jumento. Um presidente, eventualmente, pode ser os dois. 

Imagina se, em cada data comemorativa, ensaiarem um golpe de Estado? Vamos ficar tensos na Páscoa? No Natal? Vai ter tanque desfilando no sambódromo no domingo de carnaval? Vamos institucionalizar esse Halloween prolongado que estamos vivendo? 

Amanhã, 7 de setembro, não seja ridículo. No futuro, a história vai querer saber onde você estava e o que estava fazendo nesta data.

Pense na vergonha que você vai passar se tiver que dizer algo como “marchando por uma ditadura”, “camuflado de soldado com a roupinha que a mamãe costurou”, “babando na internet e pedindo o fechamento do Congresso”, “procurando comunistas imaginários embaixo da cama” ou “passeando de motinho para defender o fim do STF”. 

Independência e vida. Esquece essa pulsão de morte. A vida é curta demais para ficar lendo essas bobagens que chegam pelo WhatsApp. Aproveite o feriado. Que tal uma cerveja? Já ouviu falar em sexo?

Amanhã, 7 de setembro, saiba que certas bobagens não são uma “questão de opinião”. Tenha juízo, use protetor solar, faça exercícios, coma salada, ame sua família e amigos, defenda a democracia e não seja burro. 

* Gilberto Amendola é repórter do Estadão e observador da vida urbana

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