Não se iluda: o Big Brother está em toda parte

Pode-se perguntar por quê, já que programas desse tipo fazem sucesso (ainda que declinante) em uma série de países, Itália e Brasil inclusive

LUIZ ZANIN ORICCHIO, O Estado de S.Paulo

26 de abril de 2013 | 02h11

A nossa é a sociedade da pressa. E da superficialidade. Muitas vezes nos desvencilhamos de problemas incômodos como se eles já estivessem resolvidos ou superados. Foi assim com Reality, mal recebido em Cannes no ano passado porque, supostamente, seu tema - os estragos psicológicos de programas como Big Brother - já seria matéria fora de moda. Pode-se perguntar por quê, já que programas desse tipo fazem sucesso (ainda que declinante) em uma série de países, Itália e Brasil inclusive.

Pelo contrário, o tema se mostra de total atualidade, e não apenas por sua conotação negativa. Há quem ache que o reality show inaugura uma forma de teledramaturgia interessante e que deve ser levada em conta. Em torno disso se desenvolve o novo e ainda inédito filme de Kiko Goifman, Periscópio, pensado em parceria com o grande ensaísta e crítico de cinema Jean-Claude Bernardet (que também é ator do longa, contracenando com João Miguel).

Ora, para realizar a crítica de alguma coisa, crítica a fundo, é preciso levá-la a sério. Não digo gostar. Mas considerá-la objeto de estudo e de reflexão estética dignos do esforço. É o que faz Matteo Garrone com seu Reality.

Não se pode dizer que seja uma aproximação banal. Pelo contrário. O tom, digamos, carnavalesco, ou felliniano, da abordagem nos joga num mundo intrigante. O filme começa com um grande plano aéreo, aproximando-se de uma luxuosa carruagem puxada por cavalos brancos. À medida que se avizinha, percebemos que se trata de um casamento. Um desses enlaces temáticos, que viraram moda, e que, no caso, se desenrola no interior de um castelo fake, como num conto de fadas. Uma das grandes atrações da festa é um "herói" do Big Brother local. E a presença desse "astro" começa a colocar ideias na cabeça de Luciano (Aniello Arena), que participa da festa como travesti, mas tem a profissão fixa de peixeiro em Nápoles.

Os passos seguintes serão se candidatar a ser um dos "astros" do show... e, isso feito, se perguntar por que não foi até agora chamado para o programa. Reality torna-se, a partir de então, precioso estudo sobre a paranoia contemporânea, a sensação de se sentir vigiado full time, e a obrigação de se comportar segundo a suposta expectativa de outrem. Pouco importa que esses shows estejam ou não em declínio nos ibopes da vida. Reality parte deles para fazer uma observação mais geral sobre a estrutura da nossa civilização da vigilância. Sua visão é mais ampla e, realisticamente, apocalíptica: o Big Brother está em toda parte. Não se trata de mero programa de TV, mas de um modo de vida, do clima geral de um tempo.

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