'Não quero minha obra em porão de museu', diz Yoko Ono

Em conversa com o Estado, artista fala sobre suas produções artísticas e impressões

Camila Molina,

07 de novembro de 2007 | 17h59

São Paulo é uma cidade que, até agora, Yoko Ono conhece apenas pelo vidro dos carros que a levam para seus compromissos. Mas, mesmo assim, ela, com seus 74 anos, sente a vibração da megalópole, quer conhecê-la melhor em um tour que vai realizar sexta-feira, 9, pela cidade - e depois ela vai para o Rio. Até hoje a artista, pela primeira vez em São Paulo (em 1998 Yoko esteve em Brasília, onde realizou uma exposição, também apresentada em Salvador), esteve focada na montagem de sua atual mostra retrospectiva e nos ensaios para a performance Uma Noite com Yoko, que vai realizar quinta-feira, 8, à noite no Teatro Municipal (com projeções, música e sua atuação no palco). A reportagem do Estado conseguiu nesta quarta-feira, 7, 15 minutos de conversa exclusiva com a inquieta artista, ícone pop incontestável do século 20.     Veja também: Mostra Yoko Ono   Yoko Ono diz que já era artista antes de conhecer Lennon     Em uma sala nos bastidores do Municipal, antes de um dos ensaios, Yoko Ono estava sentada em uma grande poltrona escura. Vestida de preto e de óculos escuros que encobriam metade de seus olhos, ela respondeu às perguntas de uma maneira comedida e curta - num misto de certo distanciamento e de polidez. A seguir, Yoko comenta sua arte e suas impressões.   Em 1998, sua exposição em Brasília tinha como título Wish Tree for Brazil (Árvore dos sonhos para o Brasil). Agora, um nova árvore dos sonhos será colocada bem na entrada do Centro Cultural Banco do Brasil para os visitantes deixarem lá escritos em pedaços de papel seus desejos. Aqueles sonhos de dez anos atrás se tornaram realidade? Sim, sonhos sempre se tornam realidade, simplesmente, porque acontece, porque sim. Coloco a árvore dos sonhos em todos os países onde faço exposições. Os desejos colocados antes são guardados e outros serão agora colocados. Depois, todos são reunidos e levados para a Islândia para integrarem o Imagine Peace Tower, meu trabalho instalado lá.   Quais as mudanças que a sra. vê no Brasil de quase uma década atrás e agora? Gosto de São Paulo, talvez, porque ela vibra. Brasília é muito bonita, futurista, fantástica, mas mais quieta. E São Paulo é muito viva, amo isso. Gosto dos prédios antigos daqui também.   Seu trabalho sempre é ligado a questões políticas. Sobre o Brasil, a sra. tem alguma opinião sobre o atual governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva? Não quero pensar que ele seja de um governo do establishment político. Não podemos trabalhar no establishment. Não tenho idéia sobre ele e seu governo. Você conhece aquela expressão, ‘grassroots power’ (poder popular)?   A sra. acredita que este seja um momento de apatia, de indiferença? Momento em que as pessoas não têm ações políticas, poder político? Seus trabalhos de arte pedem a participação do público... Isso não acontece somente no Brasil, acontece em todo o mundo. As pessoas estão confusas e com medo. E nós temos que deixar de lado o medo.   O que a sra. pensa do radicalismo na arte? Acha que é necessário ser radical na arte? Na arte? Não acho necessário. Acho que a arte é bonita em diversas maneiras. Algumas artes radicais são bonitas, outras não. Mas é sempre importante.   Uma característica muito forte em suas obras é a relação com o surrealismo. Como vê essa conexão? Sou uma artista conceitual e o surrealismo faz parte disso.   Mas acredita que o dado surrealista nas obras pode encobrir ou não deixar explícita a potência política do trabalho? Você pode dar mensagens políticas com o surrealismo também, é claro. Pode passar mensagens de uma maneira conceitual também. Um de meus últimos trabalhos é o Imagine Peace Tower. É lindo, você pode experimentá-lo quando for para a Islândia, onde ele está, mas pode participar dele também apenas imaginando-o, pensando nele. Isso é conceitualismo.   O curador Gunnar Kvaran disse que seu único pedido foi que não ficassem de fora da exposição em São Paulo os Blood Pieces (Objetos de Sangue). Por quê? Gunnar fez a curadoria da exposição em Oslo e todas as outras obras estiveram lá. Quis apenas que fossem mostrados os trabalhos de sangue porque eles tratam das mulheres, de como elas sofrem. Mas pensei, em um momento, que os homens sofrem também e por isso quis colocar uma camisa masculina no trabalho. Quero mostrar essa obra porque ela enfatiza o sofrimento das mulheres, porque isso não é falado com freqüência. Sempre se fala dos soldados que foram mortos, etc., mas e sobre as mulheres que sofrem em silêncio?   Há muito de feminismo em seus trabalhos, especialmente na obra Vertical Memory. Acredita que há um equilíbrio entre a questão do feminino e do masculino em suas obras? Muitos dos meus trabalhos falam do masculino também. Não é algo fechado.   A sra. pensa em produzir alguma obra para o Brasil, a partir de sua experiência aqui? Eu não sei. Porque sinto que sempre um museu compra uma obra e a coloca no porão. Quero sempre que meus trabalhos estejam em exposições, para que as pessoas os vejam. Esse é meu interesse.   Yoko Ono. Perfomance. Teatro Municipal. Praça Ramos de Azevedo, s/nº, 3223-8698. Quinta-feira, 8, 21 h. R$ 60 a R$ 200 Exposição. Centro Cultural Banco do Brasil. Rua Álvares Penteado, 112, 3113-3651. 3.ª a dom., 9 h às 20 h. Grátis. Até 3/2/2008. Abertura sábado, 11h, para convidados

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