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Ignácio de Loyola Brandão
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Não precisa de vela, disse o pescador, vou no remo

Caminhava pelo aeroporto de Guarulhos, buscando meu portão de embarque, puxando tranquilo minha maleta de mão, junto a uma pasta, na qual sempre levo livro, caderno, caneta, celular. Quem embarca por ali, conhece a maratona em corredores sem fim, tanto que deveria existir essa modalidade na Olimpíada. Na hora do embarque, percebi que a pasta tinha sumido. Gelei. Fui roubado? Esqueci, me distraí? Era voltar e perder o avião. Mas me esperavam em Natal, para participar do 7.º Festival Literário da Pipa, Flipipa. Pensei no clichê, a vida é feita de perdas e segui, mesmo desassossegado.

Ignácio Loyola Brandão / Praia da Pipa, RN, O Estado de S. Paulo

19 de agosto de 2016 | 03h00

De Natal a Pipa, são cerca de 100 quilômetros, passando por muitas vilas e centenas de anúncios, oferecendo “promoção de camarão”. Há muitos viveiros na região e o preço é nada comparado ao de São Paulo. Cheguei a Tibau – município no qual a praia da Pipa, que foi dos hippies nos anos 1970, se insere – às 4 da tarde e devorei um Camarão à Provençal, generoso. Nos dias seguintes, sosseguei, esqueci da pasta, hospedado na Pousada Madero, encravada em um jardim no alto de uma falésia, com o mar absoluto – como diria Cecília Meireles – pela frente. Árvores, plantas, flores e uma escada de 200 degraus para descer à praia. À noite, gazebos iluminados por lanternas bruxuleantes davam um ar de mil e uma noites. E a lua nesse mar infinito? 

Senti emoção no 7.º Flipipa. Não tivesse 80 anos, não teria vivido este momento. Aconteceu aqui a junção de três momentos da cultura brasileira, levados pela geração de 1960, representada por mim; pela de 1970, com o pessoal da Nuvem Cigana, Charles Peixoto, Ronaldo Santos e Claudio Lobato, além dos escritores Cristovão Tezza e Lyra Neto. E a atual, com Gregório Duvivier, que deixou hipnotizado o público adolescente, difícil de se aquietar e ouvir. Gregório é o hoje, traz as novas formas, falas, modo de ser e contestar (palavra arcaica, mas fazer o quê?). Tanto que realizou duas sessões no mesmo dia.

Na Flipipa foram lançados o livro (Poesia e Delírio no Rio dos Anos 70) e o filme (As Incríveis Artimanhas da Nuvem Cigana) que reconstituem o nascimento e ação da Nuvem, que durou dez anos. Para quem não sabe, ela representou um significativo movimento da contracultura brasileira, confrontando o regime militar pela poesia, música, fotografia, artes plásticas, publicações alternativas e criando formas novas e pacíficas de atuar politicamente, testando experiências as mais diferentes de contestação.

Período das viagens de mochila nas costas. Nada de buscar as “raízes do Brasil”, diz Chacal, “puro pé na estrada, tendo como combustível o ácido e a maconha”. O nome Nuvem Cigana veio da canção de Lô Borges e Ronaldo Bastos. Tempos da Navilouca, da Artimanha, do Almanaque Biotônico Vitalidade, da beatlemania, da geração beat, de Oswald de Andrade, do rock. Época paralela ao Asdrúbal e ao Circo Voador.

Tudo isso foi revivido semana passada na Pipa e vai ter continuação em Natal em novembro, promete o promoter (aqui foi de propósito, gente) Dácio Galvão, um homem que podia ser ministro da Cultura, fácil, fácil, porque sabe das coisas, é antenado. Houve uma sessão comemorando o centenário de Hélio Galvão – pai de Dácio –, sobre o qual, nós do sul – ilhados, isolados, um tanto quanto arrogantes – não conhecemos. Nascido em 1916, em Pernambuquinho, distrito de Tibau do Sul (onde veio a morar mais tarde), Hélio foi professor, jurista, pesquisador musical e sociológico, fundou o MDB (nos tempos em que era um partido de verdade) e também a Faculdade de Filosofia do Rio Grande do Norte.

Conta-se que a sua casa em Tibau, certa época, era a única com luz e uma lâmpada ficava acesa no jardim da frente, onde se reuniam as pessoas que iam conversar com Hélio e ali passavam horas. Galvão foi um grande defensor dos direitos dos pescadores e um arguto observador da vida da gente simples. A historiadora Gilmara Benevides assim o definiu: “Um intelectual que, em busca do próprio passado, acabou descobrindo a nossa história”. 

Tomara o volume Cartas da Praia, reunindo colaboração de Hélio com os jornais, fosse distribuído aqui pelo Sul, chegasse aos críticos, historiadores, professores. Neste volume, tem a altura dos grandes cronistas brasileiros, de Lima Barreto a Rubem Braga, Fernando Sabino, Raquel de Queiroz. Sua prosa é objetiva, poética, tem estilo, humor e refinamento. E muito ensinamento.

Ela transita numa área próxima a Câmara Cascudo, quando fala de usos, costumes, folclores, hábitos, linguagem. Fecho com um curto trecho de Hélio: “Às vésperas de morrer, Antonio Paulino ouviu uma pessoa da casa falando sobre seu estado de saúde e dizendo que ia tomar a precaução de comprar uma vela. Como se sabe, nos meios rurais, não se concebe que uma pessoa morra sem vela na mão. Ouvindo aquilo, o doente disse aos circunstantes, certamente lembrando sua vida de velho pescador: ‘Não precisa de vela não, minha filha, que eu vou mesmo no remo’”.

PS: Na volta da viagem, encontrei minha pasta intacta nos Achados e Perdidos de Guarulhos. Ainda há gente honesta. Quem a encontrou, devolveu. Com certeza, não foi um político!

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