''Não posso nem quero ser refém do tempo''

Ana Carolina

Entrevista com

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2010 | 00h00

DIRETORA QUE VAI RECEBER O TROFÉU EDUARDO ABELIM

O que representa o prêmio especial em Gramado para você?

É bacana, mas não acredito em prêmios. Já me convidaram muitas vezes para ser jurado em festivais e eu nunca aceito porque detesto ver artista sendo julgado. Não quero ser iconoclasta, desdenhando do prêmio que vou receber. Já recebi um monte de prêmios em Brasília, até em Gramado, mas estou envelhecendo e alguém deve ter pensado - "Vamos premiar o Pereio antes que morra." Ocorreu com (Frank) Sinatra, você lembra? Ele já havia recebido um prêmio (de coadjuvante) por From Here to Eternity (A Um Passo da Eternidade) quando a Academia resolveu lhe dar outro Oscar, no caso dele, foi um prêmio humanitário. Não digo que vá ocorrer a mesma coisa, mas o princípio é esse. Premiem o velho antes que se vá.

Sua carreira é das mais impressionantes do cinema brasileiro. Um monte de filmes importantes, de autores fundamentais.

Tive esse privilégio. Fiz rádio e teatro no Rio Grande e comecei no Cinema Novo, com Ruy Guerra (Os Fuzis). Depois, filmei com todo mundo importante. Cacá (Diegues), Babenco, Joaquim Pedro, Jabor, Carvana, Walter Lima Jr. E Glauber. Não tenho nostalgia, mas convivi com muita gente bacana. Não seria o que sou sem eles.

Algum papel favorito?

Alguns mais marcantes, talvez. Os Fuzis, porque foi o primeiro. Há um filme de que gosto muito, Lira do Delírio, do Walter (Lima Jr.). Os personagens tinham os nomes dos atores. Desnudávamos nossas emoções por meio da ficção.

Eu confesso que gosto muito de O Bravo Guerreiro.

É um belo filme do Gustavo Dahl. Também gosto muito, mas não fez sucesso de público e desapareceu. Os distribuidores são assim, só se interessam por obras de sucesso e isso não tem a ver necessariamente com qualidade.

Você tem uma persona muito forte. Muda de filme para filme mantendo-se o mesmo. É difícil dirigir Pereio?

Esse é um conceito antigo, do ator controlado pelo diretor. Os diretores me escolhem, mas eu também escolho os roteiros, os autores com quem quero trabalhar. Se sou difícil? Quem me chama sabe por que quer trabalhar comigo. A dificuldade é inerente a toda relação, e isso vale também para a arte, por que não? Quer facilidade? Come m... que não tem osso.

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