''Não planejo o que vou tocar''

Maior nome do jazz atualmente, o pianista Brad Mehldau faz, sozinho, concerto beneficente quarta na Sala São Paulo

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2010 | 00h00

Rara unanimidade no jazz moderno, o pianista Brad Mehldau chega aos 40 anos com um monstro de uma reputação. Além da fama de ser tecnicamente irrepreensível, consegue ser igualmente brilhante à frente de uma orquestra ou ao piano, tocando Debussy ou Radiohead (ou até mesmo Supertramp).

Rigoroso e exigente, o pianista faz uma escala rara quarta na Sala São Paulo tocando no Música pela Cura, concerto beneficente em prol de crianças com câncer. Bradford Alexander Mehldau, nascido em agosto de 1970 em Jacksonville, Flórida, falou por e-mail ao Estado.

Que tipo de banda está trazendo para esse show em São Paulo? Há alguma chance de tocar algo do seu disco novo, Highway Rider?

Estou indo sozinho. Gosto do desafio particular de tocar piano solo. Há muitas possibilidades em determinados momentos. Muitos pianistas começam sua relação com o piano solitariamente, e então passam a tocar em grupo. Sozinho, nunca planejo o que vou tocar...

Highway Rider parece um disco conceitual no sentido antigo, com todas as composições funcionando juntas como um único corpo, e os músicos e a orquestra como uma só voz. O que você pretendia? Um álbum assim é mais perene que um álbum de canções?

Eu o pensei como uma jornada - uma jornada longe de casa, longe da família e das pessoas amadas, e então, ao final de tudo, com o regresso. Algumas partes da jornada são solitárias, outras eu as faço acompanhado.

Você disse que, quando compôs, ouvia "arranjadores e orquestradores modernos", como François Rauber para Jacques Brel, e Bob Alcivar para Tom Waits. O que define como modernas orquestrações?

Havia um amálgama de música na minha cabeça que certamente antecipa o que eu faço nesse disco - com o uso da orquestra como uma peça de modernidade. Essa música tem muito a ver com cantores. Sim, François Rauber foi um orquestrador fantástico para Jacques Brel, e eu sou viciado naquela música. Bob Alcivar fez grandes trabalhos com Tom Waits. Outro grande é Francis Hime, com as orquestrações e arranjos que fez para Chico Buarque. Um disco que eu destaco, nesse conjunto, é muito mais do que jazz. Trata-se de Cityscape, uma colaboração entre Michael Brecker e Claus Ogerman. Incríveis composições. Ogerman, é claro, é uma classe em si mesmo. O epicentro da influência no meu disco é, provavelmente, música clássica. Eu apontaria, em particular, Metamorfose, de Richard Strauss. Para mim, uma das grandes peças da música ocidental, e ponto! É também um vigoroso curso de como escrever para cordas, e eu aprendi nas cordas de Strauss a configuração para esse disco, usando as 23 cordas da forma que ele fez - 10 violinos, 5 violas, 5 cellos e três baixos.

No seu disco, há solos de piano, um dueto com o sax de Joshua Redman, você com seu trio, uma orquestra de câmara. Há unidade em tudo, entretanto. O que define como unidade?

Usei um motivo melódico para todo o disco. Você pode ouvir o primeiro violino tocando esse motivo no começo de Now You Must Climb Alone. É possível ouvir essa ideia melódica em quase todas as canções, de um jeito ou de outro. Às vezes é mais óbvio, às vezes está embutido na estrutura da canção. Essa é a "ideia" do álbum, e eu quis isso para dar uma unidade temática e um senso de narrativa para o ouvinte, para que a ideia, consciente ou inconscientemente, pudesse ser ativada na memória dele.

Você fez dois discos com o renomado produtor Jon Brion. O primeiro foi Largo. Qual é o grande talento de Brion, em sua opinião, para transferir para um álbum de estúdio sua habilidade musical e seus pensamentos artísticos?

A maior contribuição de Jon nesse novo disco foi como engenheiro de som, do começo ao fim, ajustando os microfones, capturando o som da gravação, e mixando. Há muitas escolhas criativas pela frente, e o grande desafio desse disco era como gravar a orquestra e a banda ao mesmo tempo ao vivo e fazer isso soar adequadamente. O som do disco é totalmente o som de Jon, você pode ouvir os instrumentos individualmente, de forma muito especial, e também consegue ouvir o som da sala e do ar entre os músicos. Era um desafio real e Jon trabalhou durante horas e horas para conseguir o som que você finalmente está ouvindo.

BRAD MEHLDAU

Sala São Paulo. Praça Júlio Prestes, 16, 2344-1051. 4ª, 21h. R$ 60/ R$ 150 - ingressos: www.tucca.org.br ou www.ingressorapido.com.br

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