Não percam: retratação amanhã!

NOVA YORK  - Desculpe. Estou arrependida mesmo. Não queria magoar, ofender, parecer racista, sexista ou elitista.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

10 de dezembro de 2012 | 02h07

Como posso provar que minha voz nem sempre atende ao comando da minha consciência? Se eu explicar que sofro de um tipo raro de sonambulismo, levanto à noite e meus dedos, desincumbidos de bom senso, batucam colunas inteiras e clicam "enviar" para a redação, você acredita? Não fossem os editores alertas, o Departamento Jurídico deste jornal não faria outra coisa senão atender seus advogados. Seus quem? Seus, de vocês, todos os trabalhadores de todas as categorias, todas as celebridades, todos os anônimos e, não devemos esquecer, seus animais de estimação, porque, afinal, quando eu escrevi que o seu cachorro boxer era a cara daquele apresentador (aqui o nome censurado) foi como insultar um membro da família, certo? Quem avisa amigo é: melhor contratar logo um advogado para o seu papagaio que despeja uma enxurrada de palavrões cada vez que a síndica do prédio aparece na sua porta.

Não me leve a mal. Quando eu disse que você é um playboy inconsequente que trabalha como gari e ainda faz biscate sem sofrer pressão no Banco do Brasil e, sacre bleu!, insiste em viajar para o exterior, estava sob o efeito de uma bebida cafeinada que, estranhamente, só encontro em bodegas no Bronx. A culpa é da tal bebida e já parei de tomar. Tanto que pedi desculpas por escrito, quando o Dr. Vitimado das Neves me explicou que eu não penso assim. E concordei com toda sinceridade, especialmente depois que ele apresentou a conta do escritório de advocacia Caçapava, Itaboraí, Cajuru & das Neves, que já passou de R$ 20 mil.

Agora, suplico, faça a sua parte. Dê uma injeção de vitamina B12 na sua autoestima. Respire fundo e repita, como um mantra: o cerne da minha individualidade não é uma categoria profissional, tampouco um clichê étnico ou sexual. A estupidez alheia não me define.

Acredite quando prometo que seus filhos não serão apedrejados porque um palhaço escreveu no Twitter que você sofre de mau hálito. Não nego, o meu apelo para que você resista a engarrafar o nosso Judiciário com mais um processo frívolo é motivado por interesse pecuniário. Sem liberdade de expressão, eu não posso pagar o meu aluguel. Se cada substantivo, adjetivo ou advérbio impresso aqui tiver que passar pelo crivo de um critério surrealista de sensibilidade pessoal ou orgulho coletivo, vou ser substituída por um redator de press releases elogiosos.

Se você insiste em se comportar como uma criança indefesa choramingando pela mãe no pátio da escola, vá em frente. Pode se inspirar no detento Robert Lee Brock, de um presídio de Indian Creek, no Estado de Virgínia. Ele processou a si mesmo nos anos 90. Pediu US$ 5 milhões de indenização por ter violado a própria fé religiosa quando se embriagou e cometeu crimes que renderam uma pena de 23 anos. A juíza não encontrou provas de que um alter ego bêbado tinha violado o direito civil do detento e mandou Brock de volta para a prisão. Bem que ele tentou.

Meu porteiro nascido na Albânia não só viaja todo ano de férias para a Europa, como é poliglota e se gaba de conhecer o grande romancista Ismail Kadaré. Quando bate aqui pedindo livros para espantar o tédio nas noites na portaria, dispensa algumas sugestões, com um ar meio superior, fazendo comentários do tipo "já li quase tudo do Stefan Zweig". Hum, será que ele está, de fato, querendo me chamar de cucaracha iletrada? Se ele não pedir desculpas, vou consultar meu advogado.

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