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Não peço às letras conquistas fáceis

Biografia de Lima Barreto nos leva a percorrer a história do Brasil, da literatura e da imprensa

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S. Paulo

07 de julho de 2017 | 03h00

“Eu quero ser escritor porque quero e estou disposto a tomar na vida o lugar que colimei” Lima Barreto 

 

Caro João Antônio, você morreu em 1996, aos 59 anos, solitário, em um apartamento da Praça Serzedelo Correia, no Rio de Janeiro. Estivesse vivo agora, ao passar pelas livrarias, ficaria alucinado ao dar com Lima Barreto – Triste Visionário, que Lilia Moritz Schwarcz acabou de publicar. Esse livro de 648 páginas te ocuparia durante dias e dias, a ler sem parar, sem dormir, sem escrever, sem beber, sem jogar sinuca. Pode ser ainda que você relesse, ficasse agarrado por largo tempo a essa biografia que, certamente, será a biografia definitiva de Lima Barreto.

Te conhecendo, João, acho que você choraria de tristeza e alegria, afinal, Lima Barreto foi seu ídolo, fascínio, alter ego, encantamento. Você viveu possuído por ele. Em muitos instantes, você foi ele. Encarnou-se, incorporou o espírito. Convivemos juntos nas décadas de 1970 e 1980, você, Antônio Torres e eu por estradas e céus brasileiros, a partir de 1975, falando para professores e estudantes. Torres e eu lembramos muito daquele nosso trio, você animado, raivoso com a situação do Brasil, pensando que hoje ficaria furioso, colérico com a ausência de uma política para cultura e educação. Nem sequer se nomeou um ministro para a Cultura. Seus lemas eram:

“Leitor se pega à unha” e “literatura é uma luta corpo a corpo”. Idêntico a Lima Barreto, que teve contra ele todas as barreiras, negro, alcoólatra, anarquista, marginal, lúcido, não poupando nada e ninguém. Li, entre apaixonado e emocionado, essa biografia escrita como se fosse um romance, tantas as aventuras e desventuras de Lima em sua breve vida. 

Em Triste Visionário, percorremos a história do Brasil e da literatura, da imprensa, de usos e costumes no Rio de Janeiro, durante a República Velha (Lima nasceu em 1881 e morreu em 1922, aos 41 anos). O escritor gastou a vida tentando sobreviver como funcionário público, uma existência entre bares e botecos, internamentos em hospícios, um anarquista indignado com a literatura burguesa, com o jornalismo esnobe, enraivecido contra os preconceitos, vituperando os adornos, o barroquismo e os enfeites vazios da linguagem, impondo uma escrita coloquial, fluente, popular. Ele trouxe para a literatura os desvalidos, os desfavorecidos, os pindaíbas, indigentes, os esquecidos, os sem-teto, os loucos, os bêbados. Foi o cronista de uma cidade, um povo, deu dignidade a um gênero até hoje esnobado pelos acadêmicos. 

Ele sempre foi “o outro”, conforme ele se definia, nas palavras de Lilia Schwarcz: “O outro no jornalismo, outro em suas preferências políticas, outro ainda (e sobretudo) quando se referia ao funcionalismo público”. Isso décadas antes de Sartre focar o outro ou o termo alteridade entrar em moda. A autora segue Lima passo a passo, pelas calçadas, sarjetas, redações, repartições, pelos bares, uma câmera capturando cada instante. Emociona a nós escritores ver como cada livro foi concebido, tramado, desvendando o processo de criação, profundamente ligado à vida, seja em Isaías Caminha como em Policarpo Quaresma, Clara dos Anjos, Numa e a Ninfa ou Os Bruzundangas nas crônicas. 

Para Lilia, Lima “parecia disposto a abrir mão de tudo por um trago: emprego, encontros com amigos, compromissos importantes, relações íntimas”. No entanto, ela ressalva que “não se pode afirmar que o escritor tenha se convertido em vítima passiva da bebida. Ao contrário, nesses mesmos anos se tornou cada vez mais produtivo: aparecia na imprensa com frequência e se preparava para lançar seu livro de maior fôlego: Triste Fim de Policarpo Quaresma”. 

Trecho que toca em especial a nós escritores vem no meio do livro. Diz Lilia que, a despeito de tanta contraposição, Lima jamais negou seu sonho de viver das letras. Dizia: “O fim de minha vida é as letras. Eu não peço delas senão aquilo que elas me podem dar: Glória (...). Não quero ser deputado, não quero ser senador, não quero ser nada mais senão literato (...). Não peço às letras conquistas fáceis (...), peço-lhes coisa sólida e duradoura (...), eu abandonei tudo por elas; e a minha esperança é que elas me vão dar muita coisa. É o que me faz viver mergulhado nos meus desgostos, nas minhas mágoas (...). Vamos beber cerveja”. O futuro deu-lhe o lugar desejado, em geral é assim. 

Citação para ser emoldurada em nossos recantos de trabalho; ensinada em cada aula de Letras ou mesmo em aulas do Ensino Fundamental; tatuada no coração de quem sonha escrever: epígrafe de feiras e festas literárias. Pouco espaço o meu para tanto a dizer. Louve-se a coragem da Companhia das Letras (o que é normal nela) ao colocar na capa, nada mais, nada menos, que apenas o retrato de Lima Barreto, feito por Dalton Paula. Sem o título. Quem conhece, conhece. Quem não conhece fica intrigado, quer ver o que é. E como compensa saber.

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