Não me venha com batuques na cozinha

Como entrada do periódico papo que vamos ter aqui, de hoje em diante, devo dizer que para mim música tem de envolver o ouvinte principalmente pelo ritmo. De couro, madeiras e metais, batucando e chacoalhando com arte e graça; e na frente, na sala, sem essa coisa reducionista de "cozinha".

Nei Lopes, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2010 | 00h00

Se essa música não for colonizada, melhor. E quando digo "colonizado" estou me referindo a tudo o que é imposto de fora e aceito de modo servil. Como se aceita hoje o lixo cultural que nos chega ininterruptamente e às toneladas, por conta dessa globalização em mão única e do avanço tecnológico argentário e desenfreado.

Quanto ao samba, não acho que ele seja, como se diz, uma forma arcaica, sepultada pela bossa nova e por todo o som universalizante que veio depois. Mesmo porque a bossa de 58 foi apenas uma forma de cantar e tocar samba descoberta por uma garotada esperta que não sabia fazer o que os mais velhos faziam.

Mas também não acho que o samba deva ser engessado ou congelado no nicho da "raiz". Para mim, ele tem mais é de ser pulsante, vibrante, bem cuidado, feito para dançar - como o amplo espectro do son cubano, que colocou a música africana no mercado mundial (mesmo virando world music), e hoje influencia nove entre dez músicas do mundo global, sempre com tambores muito bem explícitos. Diferente da bossa nova, que expulsou o pandeiro e também o cavaquinho. E logo o cavaquinho que é a alma do choro, pedra angular da música instrumental brasileira, e sem o qual, harmonicamente, o bom samba também não vive.

Quando digo "bom samba", falo da grande revolução provocada, na virada para os anos 80, com o pagode dos fundos de quintal cariocas. Ali, sem que quase ninguém percebesse, o samba se recriava mais uma vez, radicalizando sua polirritmia, trazendo para si as ousadas "aranhas" das harmonias bossa-novistas. Então, despertada a cobiça das gravadoras e da mídia oportunista, elas não hesitaram em criar, a pretexto da nova onda, mostrengos híbridos de samba, iê-iê-iê e tex-mex, enchendo nossos ouvidos de gel e lamê.

"Fruto do Brasil mestiço", dirá alguém. Com o que absolutamente não concordo, pois. Para mim, o elogio da mestiçagem cultural brasileira quase sempre tem o mesmo objetivo da mitologização de nossa falsa democracia racial. Padre José Maurício, Lobo de Mesquita, Francisco Braga, Henrique de Mesquita, Anacleto de Medeiros, Pixinguinha, Ataulfo, Cartola, minha gente, assim como Machado de Assis, Lima Barreto e tantos outros, podem até ser vistos como "mestiços geniais". Mas o que efetivamente mostraram, por sua afro-descendência, é que foram magistrais negros, na ampla extensão do termo.

"Mas a escola de samba...", dirão outros, achando que samba e escola de samba é a mesma coisa, e que o gênero-mãe de nossa música popular é um tipo de música de carnaval. Pois não é, não! A escola de samba nasceu do samba, mas, optando pelo espetáculo em detrimento da essência original, seu desenvolvimento se tornou paralelo e depois divergente em relação a ele.

Finalmente, quero dizer que estou com a Constituição de 1988 e não abro. Principalmente quando ela diz que o Estado protegerá as manifestações das culturas de todos os povos participantes do processo civilizatório nacional. E também quando ela consagra a liberdade de expressão, a função social da propriedade e o direito exclusivo dos criadores de obras intelectuais e artísticas sobre elas: os autores são donos do que criam e só a eles cabe determinar a forma de utilização dessas criações.

Esse negócio de que "samba é igual a passarinho, é de quem pegar" foi no tempo do compositor Sinhô. Que, esperto como era, certamente hoje não entraria nessa de Creative Commmons. Não é, meu Sinhô?

Nei Lopes é compositor e escritor

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.