Paulo Giandalia/AE
Paulo Giandalia/AE

'Não me apego à obra. Estou aqui de passagem'

Isay Weinfeld fala sobre sua relação com a arquitetura, medo de ficar surdo, música, cinema e Neymar

Sonia Racy, O Estado de S.Paulo

15 Outubro 2012 | 10h39

Isay Weinfeld dispensa maiores apresentações. Maior, aliás, é um adjetivo que ele próprio rejeita. Adepto do estilo low-profile, defensor do minimalismo, criativo e dotado de grande determinação, o arquiteto é, além disso tudo ("salve-me, Deus")... um perfeccionista. Jogue a soma de todas essas qualidades e misture-as com a timidez latente que lhe é característica, o resultado é um humano de aparência discreta, quase pacata, traído pelo olhar curioso e inquisitivo. Um arquiteto talentoso que acaba de vencer concorrência de empreendimento da família real em Mônaco, ganhando até de Jean Nouvel, o famosíssimo arquiteto francês que entre outras, projetou o Instituto do Mundo Árabe em Paris.

Na sua vasta lista de premiações estão dois Mipim Architectural Review Future Project Award, um em 2009 e outro em 2012, pelo Edifício 360, na Lapa, e pelo Edifício OKA, na Vila Madalena. Bem como o Prêmio World Building of the Year, categoria Esportes, pelo projeto da casa do Golf Club Fazenda Boa Vista. A pedido do Victoria & Albert Museum, de Londres, doou, este ano, desenhos de alguns projetos do seu escritório que vão integrar a coleção de arquitetura do museu. Sonho novo? Segundo livro a ser lançado pela Editora BEI, ainda neste ano, apresentando projetos comerciais.

Onde se inspira? Mais do que qualquer obra arquitetônica, no cinema e na música. Oscar Niemeyer? Ele não foi referência para Isay, que, entretanto, o considera "um traço único, grande escultor de formas, mas não vai ter herdeiro. Sua arte é única". Arquitetos preferidos? Adepto à prática da arquitetura silenciosa, fora do mundo dos ‘petit palais’ neoclássicos que inundam as ruas de São Paulo, Isay cita a dupla Kazuyo Sejima e Ryue Nishizawa, do escritório Sanaa.

Também cineasta, cenógrafo e designer de mobiliário ("na verdade, acho que tudo é farinha do mesmo saco"), Isay se tornou referência no setor. Muito procurado, busca trabalhar com quem tem afinidade, mesmo porque lhe é difícil abrir mão de seu padrão estético. Sua explicação para tanto, é outra: não aceita trabalhos para os quais não se sente apto. E atesta ter muita maleabilidade para se adaptar aos desejos dos clientes diferentes dos seus.

Nesta entrevista, negociada palavra por palavra, Isay opta, mais uma vez, pelo estilo sucinto. Não se estende por assuntos que poderiam absorver páginas e mais páginas. Por que? "É meu jeito."

Você acaba de vencer um concurso de arquitetura em Mônaco. Pode contar como foi?

Em dezembro passado, fui chamado a participar deste concurso, com nove escritórios do mundo inteiro, para projetar edifício residencial em frente aos jardins do casino. Vencemos.

Que caminhos te levaram à arquitetura?

O acaso. Não sei desenhar, não tive arquitetos na família e nunca tratei a arquitetura como uma religião. É só uma das coisas que me interessam na vida.

Se não fosse arquiteto, o que gostaria de ser?

Maestro. A música é o que mais me importa. Meu maior receio é ficar surdo, um dia. Acho que ouvir é o maior talento que um arquiteto deve ter.

O cinema ainda é uma paixão?

Sim, sempre. Estou voltando a misturar cinema, arquitetura e música, fazendo uma série de minifilmes a respeito de cada um dos trabalhos executados pelo escritório. Por outro lado, assim como, antigamente, esperava, ansioso, pelo novo filme do Bergman, Fellini, Buñuel, Kubrick, hoje espero o do Lars Von Trier, Kim Ki-duk e Woody Allen.

Soube que adora assistir futebol no estádio. É isso mesmo?

Adoro futebol e adoro o Neymar. Ele é um artista, me move até a Vila Belmiro para vê-lo jogar. Assim como Pelé, apesar de eu não ser santista...

De que trabalhos, que não os seus, você mais gosta?

Gosto muito dos trabalhos dos arquitetos portugueses e japoneses em geral. Em particular, do Sanaa - Kazuyo Sejima e Ryue Nishizawa. Por exemplo, o Centro de Estudos Rolex que fizeram em Lausanne é um espaço riquíssimo, que incentiva a convivência. É brilhante.

Entre estética e comodidade, qual você escolhe?

Detesto arquitetura bonita de se ver e impossível de se estar. Conforto é fundamental. É como na comida - a estética é importante mas não basta. Comida tem de ser saborosa. Jacques Tati já disse o que tinha de ser dito a respeito.

Como fazer a criatividade caber dentro da realidade?

Cada projeto é resultado de certos limites e condições. E é muito bom que seja assim. O terreno, o entorno, o programa, o código de obras local, o prazo, as condições financeiras do cliente, o meu momento pessoal, etc..., é a combinação de tudo isso que faz um projeto ser o que é. Se um dos fatores muda, o resultado é outro.

Mas há quem diga que seus projetos são parecidos...

Realmente não vejo assim, justamente pelo que disse antes. Cada projeto é resultado de uma equação que combina diferentes variantes. Os trabalhos para marcas comerciais, em rede, são a prova disso. Os hotéis Fasano, por exemplo - se você comparar o de São Paulo, o de Punta del Este e o da Fazenda Boa Vista, vai ver que são todos muito diferentes, pois são fruto principalmente de programas e sítios muito diferentes. Assim como as Livraria da Vila - projetei já quatro lojas para a rede e não há uma igual à outra. E, no entanto, nos hotéis como nas lojas, o espírito da marca está sempre presente. Garantir a individualidade de cada unidade sem perder a identidade da marca, esse é o desafio que me interessa. E para isso não há fórmula pronta..., até porque não vejo graça em me repetir. Quero me surpreender. Prefiro errar tentando algo novo a acertar repetindo uma solução que já sei que dá certo.

Você dedica aos interiores o mesmo tempo que aos exteriores. Acha que ambos têm a mesma importância?

Não penso que fazer interiores seja um trabalho menor, menos sério. Bem ao contrário. O trabalho é mais interessante quando posso exercê-lo por inteiro. Do edifício ao mobiliário. É tudo uma coisa só.

Dizem que você é minimalista e perfeccionista.

Perfeccionista, sim. Agora, minimalista... Estilo, assim como tendência, são coisas que não me interessam. Não tenho a mínima preocupação em saber em que direção vai o meu trabalho e não faço questão de ser identificado por qualquer estilo. Não faço parte de corrente arquitetônica. Prefiro me manter à margem.

O mundo dos arquitetos é muito competitivo?

É como em qualquer outra profissão. Isso não tem o menor problema. O que me incomoda é quando os arquitetos estão mais preocupados em fazer um projeto que se torne um manifesto sobre arquitetura do que conceber o espaço como a resposta certa para as expectativas do cliente. Tenho visto esses grandes empreendimentos de arquitetos estrelados, com um impacto fortíssimo no entorno. Às vezes, me parece que os arquitetos estão mais interessados em fazer uma obra prima de arquitetura do que em responder ao cliente, ou com o quanto seu projeto vai afetar a o dia a dia das pessoas. É um pouco de soberba. E o resultado são imagens tão fortes, que acho que vão logo ficar obsoletas. Isso talvez seja porque eu prefira uma arquitetura mais discreta. Uma arquitetura silenciosa.

E a cidade?

Tenho visto, com muito otimismo, esses movimentos da sociedade, as pessoas se juntando e fazendo as coisas acontecerem de verdade. Por exemplo, para pôr bicicletas nas ruas. Acho ótimo ver as pessoas se organizando mais e reivindicando mais. É assim que tem de ser, sem conformismo.

Acha importante deixar uma marca, um legado?

Não tenho apego pela obra construída, quero dizer, não acho que elas tenham qualquer importância ou que devam ser preservadas. Estamos aqui de passagem.

O que é o bom gosto?

Acho que não existe bom gosto ou mau gosto. Existe o meu gosto e o seu gosto. Quando vejo uma pessoa de bom gosto, é porque ela tem o meu gosto.

Não dá para imaginar você fazendo um projeto atendendo aos desejos do cliente e desatendendo o seu senso estético. Como funciona essa relação?

Fico estarrecido quando ouço um arquiteto dizer que o cliente estragou seu projeto. Pelo contrário, as observações do cliente só podem melhorar o projeto. O que é evidente já que o projeto é para ele. Nunca faço o que quero, do jeito que quero. Sempre faço o que o cliente quer, só que do meu jeito. A diferença é sutil.

Então, como você escolhe seus clientes?

Sempre me interessei pela diversidade. De pessoas e trabalhos. A arquitetura é um mero pretexto para eu me relacionar com as pessoas. A única coisa que tem importância é que haja afinidade na maneira como vemos a vida. É preciso lembrar ainda que um projeto é um trabalho de dois a três anos. São momentos intensos... Quero poder escolher com quem passo meu tempo.

Qual a sua maior conquista?

Justamente isso, a possibilidade de trabalhar somente para quem quero.

O que te seduz nas pessoas?

Humor.

Qual é o seu talento?

Se tenho algum talento, acho que é para pegar duas ou três coisas quaisquer e colocá-las juntas, de um certo jeito.

Mais conteúdo sobre:
Isay Weinfeld arquitetura

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.