''Não me adianta nada ser heroico''

O vencedor Asghar Farhadi diz que no Irã é preciso reagir sem se arriscar

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

22 de fevereiro de 2011 | 00h00

No dia seguinte à sua vitória na Berlinale, Asghar Farhadi passeava pela manhã com a filha, próximo ao hotel em que estava hospedado. O repórter saudou-o, ele respondeu em farsi, mas não havia ninguém para traduzir. Na quinta-feira, quando foi entrevistado pelo Estado, Farhadi saboreava o sucesso da exibição de Nader and Simin, a Separation na competição. Já surgira o mais forte concorrente de seu filme, o húngaro Béla Tarr de O Cavalo de Turim, mas o cineasta iraniano não parecia preocupado. No final, o júri presidido por Isabella Rossellini atribuiu o Urso de Ouro a Nader and Simin e o de Prata, relativo ao seu grande prêmio, a O Cavalo de Turim.

Muitos críticos acham que foi um ato político do júri. Afinal, a Berlinale de 2011 foi marcado pelos protestos contra o regime do presidente Mahmoud Ahmadinejad, que mantém em prisão domiciliar, por seis anos, o diretor Jafar Panahi, além de o haver condenado à inatividade, no cinema, durante 20 anos. "Ninguém achou que fosse um gesto político quando Procurando Elly ganhou o Urso de Prata há dois anos. Por que seria agora?" Farhadi parecia convencido do que dizia, mas a verdade é que a situação mudou, e muito. O regime iraniano endureceu a censura depois que a oposição acusou de fraudulento o processo de reeleição de Ahmadinejad. Mas seria injusto dizer que ele ganhou por isso.

Nader e Simin prossegue com um tema que já estava no filme anterior de Farhadi. Lá, havia uma discussão em torno ao terma do pecado, em torno ao desaparecimento de uma mulher na praia. Os personagens pertenciam à elite jovem do país. Nader e Simin radicaliza o contexto político. "Há uma guerra civil não declarada no Irã", avalia Farhadi. "A elite busca a modernidade como uma solução para os conflitos, falo num sentido amplo, social, político e religioso. Os mais desvalidos se fecham na tradição e na religião. É uma situação que tende a se tornar insustentável.

O filme começa com um casal, Nader e Simin, diante do juiz. Eles encaminham o processo de divórcio. Ela quer deixar o país, ele vai ficar porque se sente preso ao pai, que sofre de Alzheimer. Para cuidar do enfermo, ele contrata uma doméstica. O marido dela está desempregado. Tem o pavio curto. O caso vai parar no tribunal. O marido acusa o empregador de haver jogado sua mulher escada abaixo, o que provocou um aborto. Nader nega que soubesse que ela estava grávida, Não é verdade, mas não é a única mentira a permear a narrativa.

Conflitos religiosos, um affair judicial, muitas mentiras. No desfecho, o casal volta à frente do juiz, agora à espera da decisão da filha. Com quem ela vai ficar? Farhadi não tenta induzir o espectador. "Seria fácil manipular as emoções do público, mas não seria honesto", ele avalia. "Tento expor a realidade de forma a permitir que o espectador forme sua opinião." E ele próprio não tem opinião? "Cabe a você responder, mas acho que na própria condição do drama, a relação entre esses dois casais, um tradicional, outro mais moderno, já existe um posicionamento." Durante a coletiva dos vencedores, Farhadi foi abordado por uma jornalista iraniana, radicada na Alemanha, que lhe cobrava uma atitude mais enérgica contra o regime de Ahmadinejad. Na entrevista, talvez se antecipando a esse tipo de crítica, ele já dizia que era um cineasta, não um herói. "Não sou um político profissional nem líder de tendência. Sou um cineasta, tenho de me exprimir por meio de meus filmes." Panahi, Moshen Makhmalbaf, Jaffi Pits, Abbas Kiarostami, todos, como ele, fazem um cinema de resistência. "Nosso desafio é que precisamos ser mais inteligentes do que a censura. Precisamos encontrar formas de seguir trabalhando sem nos comprometer. Não me adiantaria nada ser heroico aqui em Berlim e sofrer o mesmo destino de (Jafar) Panahi." Para ele, o protesto da Berlinale em defesa de Panahi é um gesto político meritório. "Para nós, iranianos, para mim, é outra coisa. Eu o conheço, é como um irmão. A prisão e o impedimento de seguir trabalhando me atingem de uma maneira visceral. O que estou, o que estamos fazendo por nosso amigo? Como reagir sem nos arriscar demasiado? Não é só uma questão de dignidade, é de coragem também." A recusa de comprometimento levou Farhadi a fazer Nader e Simin sem ajuda oficial. O filme foi produzido com recursos privados conseguidos junto a um banco do Irã. Os prêmios (o Urso de Ouro e dois de Prata, para o conjunto das interpretações masculinas e femininas) poderão ajudar na carreira internacional de Nader e Simin. "Em caso contrário, estarei endividado e correndo o risco de também parar."

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