''Não há paliativos: tombamento já!''

O Belas Artes, para mim, está ligado a duas pessoas essenciais para a cultura de ponta e a cinefilia prospectiva dos anos 60 e 70: Dante Ancona Lopes e Bernardo Vorobov. Dante praticamente "inventou" as chamadas salas de repertório em São Paulo. Como gerente da Franco Brasileira, na capital paulista, presenteou a cidade com o Coral, o Scala e o Normandie, onde ficamos conhecendo a cepa da nouvelle vague e o melhor do cinema político italiano. Por esta razão, tanto o Coral quanto o Belas Artes (outra "ideia" do Dante), chegaram a ser pontos suspeitos e visados da polícia política e do CCC. Eu, Bernardo Vorobov e Jairo Ferreira tivemos provas concretas disso.

CARLOS REICHENBACH, O Estado de S.Paulo

08 de janeiro de 2011 | 00h00

Vorobov convenceu Ancona a transformar o porão do Belas Artes num salinha de pouco mais de 60 lugares. Este espaço luminar (que está inclusive "documentado" em Lilian M, Relatório Confidencial), foi o lugar onde cineastas da minha geração, eu inclusive, pudemos assistir em primeira mão - ou exclusivamente - filmes que mudaram nossas vidas e carreiras. Foi lá que Rogério Sganzerla viu Labareda, de Yoshishigue Yoshida, e resolveu usar o Cinemascope na mão do operador de câmera, em Copacabana, Mon Amour. Foi lá que descobrimos o cinema radical e avançado de Luiz Rosemberg Filho, testemunhando a única exibição de Imagens, em São Paulo, cujos negativos desapareceram. Fui lá que assisti Manhã Cinzenta, o filme maldito de Olney São Paulo. No Belas Artes vimos a maior retrospectiva do cinema revolucionário dos anos 60, com direito a Não Reconciliados, de Straub, Os Sem Esperança, de Jancso, O Jovem Toerless, de Schloendorff, e um vasto etecetera. Em suma, foi na "salinha do Bernardo" (era assim que nós chamávamos) que exercitamos - cotidianamente - a liberdade, nos anos ardentes.

Cada cinema de rua que fecha é o mesmo que uma biblioteca desativada ou uma praça pública depredada. Seja em São Paulo, ou pior ainda no interior, equivale a necrose da artéria da vida social da aldeia. Não vejo paliativos para "salvar" patrimônios culturais enfermos e/ou ameaçados; a solução será sempre extrema. Tombamento já!

CARLOS REICHENBACH É CINEASTA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.