'Não é preciso perder a cultura'

William Rabkin, autor de Monk e Psych, vem ao Brasil e diz que roteiristas não têm de copiar histórias norte-americanas

JOÃO FERNANDO, O Estado de S.Paulo

16 de julho de 2013 | 02h13

Em tempos de movimentação de estrangeiros para o Brasil por causa da Copa do Mundo e da Olimpíada, a nossa televisão também tem atraído os gringos, que veem o potencial das novas produções dos canais pagos para cumprir a lei 12.485 - que obriga as emissoras a cumprir uma cota de programas nacionais. O visitante da vez é o produtor e roteirista norte-americano William Rabkin, autor de séries como Psych e Monk, que amanhã começará o workshop Taking Series Seriously, no Auditório da Paulista.

Ele avisa que não vai convencer os roteiristas a reproduzir o que é feito nos EUA. "Vou com a experiência do estilo da TV norte-americana e mostrar aspectos que conquistaram o mundo. Em alguns países, programas norte-americanos dublados são os mais vistos. House, CSI e Walking Dead são grandes ao redor do mundo. Quero dividir com os produtores, roteiristas e executivos brasileiros como produzimos. É sobre o estilo, como escrevemos. O conteúdo cultural não é importante. Vocês não têm de deixar de ser brasileiros e pensarem como norte-americanos. É para mostrar as ideias que chamam a atenção da audiência em todo o mundo", disse ao Estado por telefone.

Nas aulas, Rabkin simulará a sala dos roteiristas, em que um grupo escreve os diálogos em conjunto e debate ideias com o showrunner, figura principal da produção de uma série, responsável por supervisionar o texto e também lidar com elenco, direção e orçamento.

"Eu nunca falo o que eles têm de escrever, a história pertence a eles. Meu objetivo é fazer com que encontrem a melhor maneira de contar essa história. É isso que vou fazer no Brasil. Não vou mandar ninguém fazer House ou CSI. Vou mostrar onde está o ritmo, a estrutura. É assim que você vai deixar a audiência do jeito que os seus clientes querem. É para vocês fazerem o que querem de maneira bem-sucedida."

Responsável por séries como Na Fama e na Lama e Morando Sozinho, o carioca Clay Lins, que voltou para Brasil em 2008, após duas décadas trabalhando com TV nos EUA, trouxe o amigo Rabkin porque tem tido dificuldade de encontrar roteiristas para desenvolver novas produções. "Antes, não tínhamos essa demanda. Roteirista era só de novela", compara. Ele explica que os profissionais daqui não costumam desenvolver as histórias para ampliar as temporadas. "Nos EUA, no pitching (seleção), os executivos perguntam o que vai acontecer no capítulo 40. Aqui não falta criatividade, falta treino", sentencia.

Mesmo com o abismo da diferença de verba para produzir nos EUA e Brasil, Rabkin afirma ser possível fazer TV com qualidade. "Há séries de milhões de dólares por episódio, é difícil competir. Mas escrever de maneira que seduza as pessoas não custa muito e pode cruzar fronteiras."

Para ele, uma história brasileira interessante pode ser adaptada em outros países. "O estilo norte-americanos chegou a outros países, mas se integrou às outras culturas e elas estão voltando para nós. O público daqui não gosta de legendas nem de dublagem. O que está acontecendo é que os canais estão produzindo os formatos de fora, como foi com Homeland. Agora, estão fazendo The Bridge, uma coprodução com países escandinavos. O traço único de uma cultura em uma história nova causa impacto e isso pode ser traduzido."

Segundo Rabkin, o texto é mais importante do que os aspectos culturais. "Estamos descobrindo que, quanto mais individual é uma história, mas universal fica. Você foca num personagem ou em uma circunstância que as pessoas se identificam. O mercado brasileiro está se abrindo para que vocês contem histórias suas e chamem a atenção da audiência brasileira. Não é preciso perder a cultura de vocês para se tornarem globais."

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