Não é desta vez que faremos a catarse do golpe pelo riso

Crítica: Luiz Zanin Oricchio

O Estado de S.Paulo

20 Fevereiro 2012 | 03h06

JJJJ ÓTIMO

J RUIM

É difícil fazer uma sátira política. Mais ainda, fazer uma sátira política inteligente. E muitíssimo mais complicado é fazer uma sátira política inteligente que, ainda por cima, seja engraçada. Na verdade, a última qualidade, se presente, absolve a ausência de todas as outras. Mas o que dizer de uma sátira política pouco engenhosa e que deixa a plateia indiferente? É o caso de Reis e Ratos, do bom diretor Mauro Lima, de Meu Nome Não É Johnny.

Lima recria, como paródia, o clima golpista que havia no País em 1963 e que levou à derrubada do governo no ano seguinte. De certa forma, trabalha com os elementos, alguns deles ao menos, que de fato estavam em jogo naquela situação: militares e civis interessados em se livrar do governo, adidos norte-americanos que davam subsídio à desestabilização, políticos e latifundiários também interessados em tirar sua casquinha, etc. Junta a eles personagens fictícios que, infelizmente, são esculpidos a machado e tornam-se caricaturas.

Os vários núcleos da trama parecem estranhos uns aos outros. Uma boa sacada, personagens que falam como se fossem dublados, perde-se na irrelevância. O que fica de tudo são impressões desconectadas umas das outras. A dupla Otávio Müller, como major, e Selton Mello, um agente da CIA, torna-se responsável pelos poucos momentos interessantes do filme. Não são melhores porque, com o texto que tinham os atores, milagres não são permitidos. A presença em cena de Rodrigo Santoro, como o gigolô Roni Rato, só pode ser definida como penosa. Cauã Reymond tenta ser engraçado como o radialista metido a sensitivo, mas o papel não ajuda. E Rafaela Mandelli, uma bela estampa, parece meio perdida no papel de cantora gaúcha que se torna pivô da trama.

Reis e Ratos é um capítulo à parte na tragédia em que se tornou o gênero cômico no Brasil. Com raras exceções, ou se investe na grosseria como forma de buscar cumplicidade num público já anestesiado pela nota dominante da TV, ou, como é o caso de Reis e Ratos, aposta-se todo o capital no elenco famoso e descura-se tanto da carpintaria do texto quanto da qualidade de direção.

Os bastidores de 1964 costumam ser apresentados de forma grave no cinema. Já era hora de nos divertirmos com essa tragédia política, que, de fato, teve muito de farsesca, quando vista à distância. Mas não é ainda desta vez que faremos essa catarse pelo riso.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.