Não contavam com sua astúcia: Chaves agora é poeta

Chaves sai do barril de madeira onde vive e só vê por perto Dona Florinda. Kiko, enfezado com tanta gentalha, se mudou e não fala com ele há mais de 20 anos. Chiquinha brigou, chorou e deixou a vila cuspindo fogo. Seu Barriga não tem mais de quem cobrar aluguel desde que Seu Madruga morreu, em 1988, vítima do mesmo vício que também levou a Bruxa do 71: o fumo. Mas Dona Florinda está lá, firme, apaixonada e casada há anos com o garotinho melancólico que cansou de quebrar suas vidraças.Seria este o último e mais real episódio do seriado Turma do Chaves se Roberto Gómez Bolaños - diretor, criador e intérprete do personagem infantil que se tornou febre de uma inusitada audiência em mais de 30 países - resolvesse escrevê-lo. Aos 74 anos, seis filhos, doze netos e casado com a atriz Florinda Meza, a Dona Florinda, Bolaños faz uma demonstração de sua astúcia quando ninguém parecia mais contar com ela. Seu livro ...Y También Poemas, uma compilação de versos que ele escreve há 25 anos, tem esgotado nos países de língua espanhola. O autor estuda traduzi-lo para o português de uma forma que não comprometa as rimas.Sua vida pode também ir para as páginas. Roberto Bolaños avisa que pretende contar sua história em uma cuidadosa autobiografia. "Vou respeitar as pessoas. Não vou ser cínico", diz, em uma entrevista publicada na internet. Fora dos estúdios desde o final dos anos 90 - quando os seriados deixaram de ser gravados em definitivo, após a morte de Horácio Bolaños, irmão de Roberto,que interpretava Godines - o ator virou um produtor em série de poesia e outros textos.Dona Florinda Meza é tão apaixonada pelo homem que a dirigia no seriado que se deu ao trabalho de contar: em 43 anos escrevendo, dizem seus cálculos, Bolaños preencheu 63 mil folhas de papel, o que equivale a 2,4 milhões de linhas e 168 milhões de letras. Mas nenhum desses roteiros chega aos pés de uma vida real que ultrapassa os limites do dramalhão mexicano. Ou ninguém teve paciência com Roberto Bolaños, ou Roberto Bolaños não foi seguido pelos bons.Chiquinha, que fora do seriado é María Antonieta de Las Nieves, tem 54 anos e uma mágoa no peito quando lembra de uma briga judicial que segue nos tribunais. Maria Antonieta registrou em seu nome a personagem Chiquinha, sem avisar Bolaños. Foi processada e saiu-se no melhor estilo "atriz-mexicana-ferida". "Estava muito mal, minha netinha estava doente, perdi as economias de toda a minha vida na bolsa de valores. E, para completar, sou processada", desabafou. Sem a ingenuidade de Chaves, Bolaños respondeu às perguntas feitas pelo JT por e-mail sem poupar Maria "Chiquinha". "Ela foi minha amiga por muitos anos e eu havia permitido que usasse a personagem Chiquinha em todo o mundo, o que deve ter rendido uma fortuna da qual jamais lhe pedi um centavo. Mas ela quis se apropriar de maneira ilícita dos direitos. O que mais me afetou foi a deslealdade, ela traiu minha confiança."Triângulo amoroso - Não é oficial, mas comenta-se que foi também por traição que Carlos Villagrán, o Kiko, passou 20 anos sem trocar palavras com Bolaños. A pivô da história: Dona Florinda. Villagrán teve um caso com a atriz antes de ela se casar com Bolaños. Mas Bolaños, na época, já gostava de Florinda. A ferida nas três pontas do triângulo amoroso passaria duas décadas aberta até que a Televisa, emissora mexicana que produziu o seriado, promoveu um reencontro para homenagear Bolaños. Bolaños "Chaves" e Villagrán "Kiko" apertaram as mãos, se abraçaram, foram para suas casas e não se falaram mais.Bolaños, por essas e outras, quer distância da tevê. "Minha imagem continua muito viva por causa das incansáveis repetições dos programas. Por isso acho que este não é um momento para fazer tevê. Respeito meu público e não quero que ele se canse com tanto Chaves e Chapolin por toda a parte." Sua decisão é louvável - mas inútil. Chaves e Chapolin, no Brasil, seguem dando ao SBT ótimas audiências e formando uma terceira geração que usa camiseta vermelha, anteninha amarela e grita "não contavam com minha astúcia" na sala.

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