Depoimento: Cristovão Tezza

16 de março de 2012 | 03h10

Sempre me perguntam se eu participo ou gostaria de participar das adaptações de meus livros para o teatro ou cinema. A resposta é não: sinto-me tão integralmente dominado pela literatura que teria muita dificuldade para transportar meu texto para o palco ou para a tela. Mas nem sempre foi assim. Comecei minha vida de artista, por assim dizer, pelo teatro. Na prática e na teoria - fui contrarregra, iluminador, ator e até mesmo dirigi uma peça, nos idos dos anos 70. Depois, a literatura tomou conta da minha cabeça.

Quando o grupo Atores de Laura propôs adaptar O Filho Eterno para o palco, fiquei um pouco assustado. Não conseguia imaginar meu texto em cena. Depois, assistindo a Adultério, que o grupo levou ao Festival de Curitiba no ano passado, percebi que o grupo não é de brincar. Eles são muito bons. Cedi os direitos do livro para o teatro e não me arrependi. A adaptação ficou a cargo do Bruno Lara Resende - não participei em absolutamente nada. Só fui ver um ensaio geral da peça, no Rio. Gostei muito. Direção, cenografia, luz, som - achei a montagem limpa e delicada em cada detalhe, num tema que é mais difícil ainda em voz alta do que no silêncio da página.

E fiquei impressionado pelo recorte do texto que foi feito, concentrando a peça na relação pai-filho. E uma das coisas que me chamaram a atenção especialmente foi a intensidade emocional do teatro: a palavra em voz alta tem uma carnalidade instantânea. Como o livro é fortemente biográfico, ao ver aquele pai em cena, aliás, perfeito na pele do Charles Fricks, percebi quanto o teatro da minha formação acabou por influenciar, por vias tortas, minha literatura.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.