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Ignácio de Loyola Brandão
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Não cancelem os festivais de livros

Há três semanas, Pirenópolis, pequena cidade histórica de Goiás, Pirenópolis, mesmo em plena crise, juntou o que pôde, reduziu a programação e colocou de pé a Oitava Flipiri, festa literária. Todas as escolas, rurais e urbanas, receberam escritores que foram contar e ouvir histórias, conversar e responder a perguntas. No campo, as mães participaram, oferecendo café, leite, coalhada, manteiga, queijos, pãezinhos típicos e o bolo Mané Pelado, de mandioca. Há um concurso anual, em que as crianças que mais leem são premiadas. Vi garotos de 10 e 12 anos, que em quatro meses leram mais de 30 livros. Leram, fizeram resenhas, comprovaram a leitura.

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2016 | 02h00

Depois de Sorocaba, onde falei na Oficina Cultural Grande Otelo, desci a Santos, para a Oficina Cultural Pagu, e deparei com 70 pessoas em um sábado invernal e úmido. Lindo, literatura tirando gente de casa. Inverti a direção, voei para a 16.ª Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto. Mesmo em um ano de verbas escassas, os eventos foram reajustados e realizados. As escolas, centros culturais, bibliotecas, praças receberam a cada dia no mínimo dez eventos.

Fazendo das tripas coração, a feira foi colocada de pé. Há ali, uma linha de frente determinada, composta por Adriana Silva, Edgard de Castro, Nelson Jacintho e Laura Abbad e outros, que não dormem, não comem, não descansam até que a feira comece e acabe. Uma vez desmontada, a equipe só pode cair desmaiada, imagino. Para se ter ideia, a revista da programação tem 50 páginas e, em cada página, anuncia-se cinco ou seis acontecimentos, das palestras de Danilo Santos de Miranda, a Mário Sérgio Cortella (dono do palco, do assunto, da plateia, do humor e da ironia), a Martinho da Vila, Audálio Dantas, Joca Reiners Terron, Jayme Monjardim, Dan Stulbach, Luiz Puntel, Marcelo Coelho, Adauto Novaes, Pedro Bandeira, Zé Miguel Wisnick, Pierre Ruprecht, Edney Silvestre, André de Leones, Mamed Jarouche, Marcelino Freire, Antonio Carlos Sartini (Museu da Língua Portuguesa), Cristovão Tezza, Menalton Braff, Ronaldo Bressane, Isaías Pessotti, Alice Ruiz. E muitos outros.

Agora, governador Alckmin, me ouça. Há dez dias, quando Silvio Band me ligou de São Francisco Xavier anunciando que o Festival da Mantiqueira tinha sido cancelado, murmurei desolado: mais um. Eles estão caindo como ministros do Temer. Estes festivais têm nomes diversos. Uns se chamam festa literária, outros salões, feiras, encontros. Ou jornadas, como as de Passo Fundo, que por 30 anos cresceram, a ponto de abrigar cinco mil professores e estudantes de Português e Letras, ganhando o status de uma das maiores do mundo na formação de leitores. Até serem canceladas, ano passado. Um violento nocaute. Há quem garanta que o fim da Jornada de Passo Fundo é provisório, ainda que no Brasil o provisório se torne permanente, devido à mediocridade, à corrupção e à sem-vergonhice do mundo político.

A feira de Livros de Porto Alegre está próxima de sua 61.ª edição, é a mais antiga, prova de que o fazer contínuo solidifica. Como a comida que melhora, à medida que se faz, que se erra, se volta a fazer, Porto Alegre expandiu da mera venda de livros para tornar-se megaevento de arte e cultura. No Pará, a imponente Feira Pan-Amazônica que de Belém vai a Santarém, Marabá, Paragominas e Carajás, diminuiu o tamanho, mas a ferro e fogo continua de pé, assim como a Fliv, de Votuporanga, e a de Santa Cruz do Rio Pardo, entre outras.

O Festival da Mantiqueira formatou-se como dos mais informais, descontraídos e deliciosos acontecimentos. A cidade é uma graça, há passeios, pousadas aconchegantes, amigos recebem amigos, os bares e restaurantes são agradáveis e os maiores e melhores nomes da literatura passaram pela cidade. Os encontros na tenda da praça sempre foram memoráveis. Escritores, ensaístas, professores esperávamos com ansiedade o convite para participar. Se ele não vinha, fazíamos reservas pessoais, queríamos estar lá. Jamais esqueço a alta madrugada em que após o jantar, um grupo começou a se dispersar, alegando sono. Então Boris Fausto, cujo O Brilho do Bronze é obra-prima, reclamou: “Gente fraca, a noite nem começou, o vinho está no meio”. Ele tem apenas 86 anos. Assim foi a Mantiqueira. Foi. Uma pena! Este ano, no sufoco, a solidariedade e a mão amiga da comunidade produziram um minifestival no sábado e domingo passado. E agora?

O governo Alckmin degolou a Mantiqueira, alegando que o festival tinha cumprido missão de fomentar leitores. Governador, essa missão nunca termina, porque ela mal começou. O fazer é que traça novos caminhos, valores, maneiras de luta. O leitor tem de ser conquistado um a um, no corpo a corpo, como dizia o falecido João Antonio. Manter a Mantiqueira, promover o Iguape e tantos outros, esta é a missão. Nosso Estado tinha (ou ainda tem?) um dos melhores projetos que conheci – e olhem que andei e ando por este Brasil. Chamado Viagem Literária, levava 80 escritores para 400 cidades. Mas soube que também será reduzido. Cancelar a Mantiqueira, não! Revejam conceitos, afinal estamos na cidade e no Estado mais poderosos do País. Peço aqui, em nome de leitores, estudantes, autores, professores, e cidadãos, em nome da Cultura: não mate o Festival da Mantiqueira. E nenhum outro.

 

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