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'Não acredito na essência em termos políticos', diz Alan Pauls

Em passagem pelo Brasil, o escritor argentino lançou seu 'A Vida Descalço', pulou carnaval e falou da cultura de seu país

Marília Neustein, O Estado de S.Paulo

25 Fevereiro 2013 | 02h07

Alan Pauls recebeu a coluna em um pequeno apartamento, no coração de Botafogo, na zona sul do Rio, em plena terça-feira de carnaval. Na cidade para lançar o livro A Vida Descalço, o escritor argentino tinha acabado de chegar de uma temporada de dez dias na Ilha Grande. Aproveitou sua passagem pela capital fluminense para conhecer, de perto, a folia, em um bloco de rua. Experiência que descreveu como sendo de "grande intensidade". "Durante duas horas, foi como estar em dez discotecas ao mesmo tempo. A cidade é a discoteca", conta.

"Brasil, para mim, é como uma bola de energia", resume. O oposto de Buenos Aires, onde vive - "uma cidade regulada, equilibrada".

A obra - escrita há seis anos e agora traduzida para o português, em edição da Cosac Naify - estava destinada ao Brasil, segundo Pauls, por ser sobre a praia e a cultura do verão. Com forte viés autobiográfico, narra a relação do autor com a vida praiana. "Meu pai era um fanático, um 'taleban' da praia, um fundamentalista (risos). Acordávamos às nove da manhã, íamos à praia e só voltávamos às oito da noite. Ficávamos dez horas na areia", relata. O olhar sobre a praia muda, no entanto, quando o escritor fala a respeito do Rio. "Há um intercâmbio entre a cultura da praia e a urbana. E um fetichismo do corpo, o modo como é visível em qualquer lugar", reflete.

Quando o assunto é Argentina e o governo Kirchner, ele fala sobre o culto da perda e a relação com o passado, temas recorrentes em sua literatura. "Parece que, para a cultura argentina, as coisas não são verdadeiramente importantes até que se percam. Uma vez perdidas, passam a ser recordadas, mitificadas, idealizadas." E acrescenta: "Os Kirchner já estão no poder há 10 anos. Esse é um governo que fez muitas coisas novas em nome do passado, em nome dos anos 70, da geração que foi perseguida, exterminada", afirma.

Leia a seguir os melhores trechos da entrevista.

Seu livro A Vida Descalço foi lançado há seis anos na Argentina, mas só agora ganhou tradução no Brasil. Como é revisitar essa obra, anos depois?

Alan Pauls - É interessante. Você pensa que o livro já cumpriu seu ciclo e, de repente, ele renasce, como um fantasma, traduzido para outra língua. Mas, para mim, A Vida Descalço era uma obra um pouco destinada ao Brasil. Porque é sobre a praia, fala de uma cultura de verão, que me parece muito importante aqui. Então, seis anos depois, o livro ganha essa vida brasileira, que eu havia sonhado para ele (risos). Além disso, narro um episódio muito importante da minha vida: a primeira visita ao Brasil, na praia de Copacabana, nos anos 70.

E, na sua visão, o que mudou em relação àquela época?

Alan Pauls - Era a primeira vez que eu viajava para fora da Argentina. O Brasil, para um portenho de 11 anos, era exotismo total. Tudo que me lembro é de um olhar assombrado e perplexo de um menino, a quem tudo fascinava. Desde a pele negra - que não existia na Argentina - até a pobreza. Acho que o que se mantém intacto, ao longo de todos esses anos, é uma certa experiência de intensidade. Brasil, para mim, é intensidade. Buenos Aires, onde vivo, é uma cidade equilibrada, regulada. A cor, os gestos, as atitudes, o contato com os outros - tudo tem uma estabilidade. O Brasil é como uma bola de energia. Ainda mais agora, com o carnaval. Fiquei nesse bloco durante duas horas e foi como estar em dez discotecas ao mesmo tempo. A cidade é a discoteca. Essa intensidade é incrível. E acho que só posso suportá-la em lapsos pequenos.

Esse seu livro tem um viés autobiográfico forte, sobre sua vivência de praia, inclusive tem fotos da sua infância. Como foi essa sua experiência?

Alan Pauls - Tive muito essa vivência com meu pai. Que era um fanático, um "taleban" da praia, um fundamentalista (risos). Acordávamos as nove da manhã, íamos à praia e voltávamos às oito da noite. Todos os dias, durante todo o mês de fevereiro. Em uma época pré-câncer, pré-protetor solar. Meu pai era um adorador do sol. Mesmo depois de adulto, quando eu voltava de férias, me "escaneava" para ver se eu estava bronzeado. Usei essas cenas pessoais no livro. Para mim, a praia tinha toda uma voluptuosidade infantil.

E grandes cidades que têm praia, como o Rio de Janeiro?

Alan Pauls - A relação de contemplação, com o infinito, muda completamente. Há um intercâmbio entre a cultura da praia e a urbana. No Rio, isso é surpreendente. Gente de biquíni no metrô, por exemplo. Além do culto ao corpo, que é algo insólito. Há um fetichismo do corpo, o modo como é visível em qualquer lugar. Na rua, no restaurante, no aeroporto... É como se não houvesse limite para o corpo. A exibição me impressiona muito.

Você já disse que um tema que lhe atrai na literatura é a obsessão, que é uma maneira de participar do mundo. Na sua opinião, qual seria a atual obsessão, a internet?

Alan Pauls - Acho que a obsessão da época é o "ter acesso". A internet cruza uma fronteira que antes, por alguma razão, estava bloqueada. O acesso é a única coisa que realmente se democratizou com a internet. Isso não implica na democratização do conhecimento ou da informação.

A internet, inclusive, é assunto recorrente na Argentina. A presidente, Cristina Kirchner, usa, frequentemente, as redes sociais para fazer pronunciamentos oficiais. O que acha disso?

Alan Pauls - Por alguma estranha razão, na Argentina, os primeiros que começaram a usar o Twitter foram os políticos. E o Twitter é um meio de comunicação a mais, considerando que o tipo de informação que circula é muito peculiar. É agressivo, pessoal. E tem um quê de provocação. Na minha opinião, o que o Twitter produz é um efeito "espuma de informação". Aquele negócio de "o que está sendo falado", mas sem consistência. É um efeito lisérgico político.

Mas o que pensa a respeito da atitude da presidente Cristina Kirchner?

Alan Pauls - Cristina continua com essa apropriação que a classe política fez das redes sociais. Criou polêmicas e brigas com atores como Ricardo Darín. O que acho interessante é que o governo dos Kirchner foi o primeiro, em muito tempo, a ter uma consciência sobre os meios de comunicação. Perceberam que são um campo de batalha político, como o Senado, a Câmara... E investiram muito nisso.

Ainda falando sobre obsessões, acha que, na Argentina, existe uma obsessão com a memória? Cristina também evoca, frequentemente, Nestor em seus discursos, como Perón fazia com Evita.

Alan Pauls - Há um interesse, um desejo muito forte pelo passado que, talvez, seja uma particularidade do país. Existe uma certa cultura da perda, que se percebe muito no culto aos mortos. A perda é um valor na Argentina. Parece que as coisas não são verdadeiramente importantes até que se percam. Uma vez perdidas, passam a ser recordadas, mitificadas, idealizadas. Ou o contrário, odiadas. Enfim, quando algo se perde, começa a ser possível. Isso é tortuoso, complicado, obscuro. É difícil se relacionar com as coisas perdidas. Mais complicado ainda estabelecer uma relação justa com elas. Que não seja nem de nostalgia e nem de ódio.

Foi isso que você tentou fazer com a trilogia (A História do Pranto, A História do Cabelo e A História do Dinheiro)? Tentar se relacionar com os anos 70 dessa forma mais "justa"?

Alan Pauls - Isso. Tentei ver se era possível ter uma outra relação com o passado - que não fosse de idealização nem de rancor. E veja: uma relação justa não é, necessariamente, equilibrada. Pode ser passional, descontrolada. O problema da cultura argentina é o tipo de relação que se mantém com o passado, um pouco dominada pelo que já foi. Podemos ter conexões fortes com o passado, mas não de escravidão.

Acredita que essa relação gera uma certa melancolia?

Alan Pauls - Totalmente. Uma melancolia e uma certa soberba. Como se a Argentina do século 19 tivesse sido... Atenas. E foi um país de selvagens, bárbaros que mataram os índios, os negros. Buenos Aires se deu conta de que pertence à América Latina faz, o quê, vinte anos? Até esse momento, acreditava ser uma cidade europeia, mito que funciona muito bem até hoje. Agora, depois da crise, a cidade se encontrou com Santiago, Montevidéu, São Paulo. A "latino-americanização" de Buenos Aires não foi um processo vivido com tranquilidade, mas com racismo e inquietude. A crise feroz de 2001 e 2002 foi catastrófica, mas também genial. Porque derrubou mitos e abriu espaço para uma regeneração.

Essa regeneração, na sua opinião, está sendo conduzida pelos Kirchner? Acha que é um momento interessante do país?

Alan Pauls - É interessante e estranho ao mesmo tempo. Os Kirchner já estão no poder há 10 anos. É um governo que fez muitas coisas novas - pelo menos no nível de política governamental - e muitas dessas novidades foram realizadas em nome do passado, em nome dos anos 70, da geração que foi perseguida, exterminada. O vital pode nascer de experiências e ideias que pareciam mortas e sepultadas. É um processo paradoxal. Acho que a única atitude inteligente frente a isso é saber aceitar esse paradoxo, sem tentar simplificá-lo.

Quando lançou seu livro História do Cabelo, você afirmou que poderíamos entender a história da política mundial analisando os cortes de cabelo. O que acha, por exemplo, de Michelle Obama alisar os cabelos? Na sua opinião, ela deveria usar o cabelo natural?

Alan Pauls - Estava pensando justamente sobre isso, outro dia. Perguntava-me se era bom que a mulher do primeiro presidente negro dos EUA alisasse o cabelo. Afinal, alisar os cabelos era uma maneira de as mulheres negras se integrarem à sociedade branca. Desse ponto de vista, seria genial se Michelle aparecesse com o cabelo como o de Angela Davis (ativista americana). Mas, ao mesmo tempo, conversando com minha namorada, ela me chamou a atenção para o fato de que alisar os cabelos já é uma tradição mais negra do que branca. A cultura negra se apropriou do alisamento de cabelos.

Pessoalmente, o que acha?

Alan Pauls - Acho que quem acredita que é ruim que Michelle alise o cabelo está pensando no cabelo como essência. E eu não acredito nas essências em termos políticos. Acho que o essencialismo é sempre muito nefasto em política. Mas, se considerarmos o cabelo como uma matéria e um tipo de signo - que mudam de sentido e de apropriações -, acho que está ótimo que ela alise o cabelo.

E quanto às suas participações, como ator, no cinema? Pretende repeti-las?

Alan Pauls - Gostei de ter sido chamado por esses diretores. No entanto, sou um ator muito ruim. Tenho vergonha, medo do ridículo, tudo que um ator não pode ter. Aproveitei a experiência. Como sempre gostei de cinema, fui crítico e roteirista, me fascinou a ideia de participar de uma filmagem, viver essa comunidade que se forma com atores, técnicos. Queria entender a razão pela qual as pessoas vendem casas, sacrificam os casamentos, ficam sem dinheiro só para fazer um filme. Para mim, o segredo desse mistério sempre esteve na filmagem, nesse tempo em que essas pessoas que não se conhecem passam juntas.

E, de fato, correspondeu à sua expectativa?

Alan Pauls - Sim. Parece que há mais ficção em um set de filmagem do que no filme em si. Vive-se um mundo de ficção no set. Paixões, gente que se ama, se odeia, trai. Tem sexo, delírio... E tudo termina quando a filmagem acaba. É uma utopia perfeita. Por isso que os atores se apaixonam sempre. São "romances de filmagem". É como se fosse o componente para o filme - a experiência de filmar. A filmagem é uma experiência de ficção. E isso foi lindo.

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