Nanini e Marieta retomam clássico precoce

O estranho mundo de Martha e George - ele um professor universitário fracassado, ela, sua mulher, filha do reitor da universidade - está de volta a São Paulo. O casal, que vive mergulhado em uma roda-viva hostil, composta por alcoolismo, agressão, autoflagelação, raiva mútua e afeto, protagoniza um clássico precoce do século 20, Quem Tem Medo de Virginia Woolf. O espetáculo entra em cartaz amanhã, no Teatro Alfa, para curta carreira, que se encerra no dia 6 de agosto.A magnífica peça, escrita pelo norte-americano Edward Albee, foi dirigida por João Falcão (A Dona da História). O elenco é estelar. Martha é vivida por Marieta Severo, e George, por Marco Nanini. Além dos dois, a peça põe em cena um casal jovem, Nick e Honey, que visita Martha e George, desencadeando um festival de ferocidade e violência verbal. O belo Nick, um professor ambicioso, é intepretado por Fábio Assunção, e sua mulher grávida e opaca, Honey, cabe a Sílvia Buarque.Não é a primeira vez que Quem Tem Medo de Virginia Woolf ganha montagem no Brasil. O texto teve uma encenação antológica nos anos 60, com a lendária Cacilda Becker e Walmor Chagas dirigidos por Maurice Vaneau. No fim dos anos 70 foi a vez de Antunes Filho assinar uma produção estrelada por Tônia Carrero e Raul Cortez. Agora é a vez de Marieta Severo e Marco Nanini entrarem na pele dos personagens que foram vividos, no cinema, por Elizabeth Taylor e Richard Burton.Noite das bruxas - A trama de Virginia Woolf nada tem que ver com a figura da escritora inglesa, autora de Orlando e Mrs. Dallaway. O nome de Woolf entra na história em um trocadilho de mau gosto com a canção infantil, Quem Tem Medo do Lobo Mau, música-tema dos Três Porquinhos. Edward Albee - que, depois de anos de contracultura, chegou à Broadway e ao sucesso com esta peça em 1962, quando era um dramaturgo com pouco mais de 30 anos - colocou em cena a destruição do sonho americano.Depois de uma festa oferecida pelo reitor da universidade, Martha e George recebem em sua casa a visita de Nick e Honey. A noitada se transforma em uma feroz noite das bruxas, na qual todos os demônios são soltos. Vêm à tona, então, o desamor, a raiva, as mentiras que alimentam os dois casais condenados à infelicidade."Foi Marieta quem teve a idéia de remontar a peça", diz Marco Nanini, que co-produziu a montagem com a atriz. "O texto é muito atual e, embora seja realista, tem um pé fora do realismo". João Falcão criou para a montagem uma estrutura cênica sem móveis ou objetos de cena, concentrando o foco nos atores. "Falcão atenuou a crítica feita por Albee à sociedade americana e deu ênfase a conflitos universais que ele apresenta". Entram em pauta a solidão, a falta de diálogo, os jogos a que as pessoas se submetem.O texto foi escrito há apenas 38 anos e é um clássico precoce. As décadas que se passaram desde a estréia adensaram sua acidez. "Albee é impressionante", diz Fábio Assunção. "Ele coloca os problemas de relacionamento de um jeito que pertence a todas as épocas, e não a uma geração". Assunção está entusiasmado com a possibilidade de observar o trabalho de Marco Nanini. "São lições para mim sua disciplina, sua determinação. Ele constrói o personagem passo a passo, e aprendi muito acompanhando a criação dele". Sílvia Buarque volta a atuar ao lado de sua mãe, Marieta Severo, depois de um longo intervalo. Em meados da década de 80, quando Sílvia era uma atriz estreante ambas atuaram em Madame de Sade, de Yukio Mishima. "A nossa relação hoje mudou, está mais tranqüila. Quando fizemos Mishima eu era muito tímida, estava começando, e foi muito difícil. Hoje não. Cuidamos uma da outra".Quanto à peça, segundo Sílvia, "é magnífica, e Albee foi visionário. George fala de clones, de gente criada em laboratório. E nós estamos vivendo isso agora, 40 anos depois".Quem Tem Medo de Virginia Woolf - Teatro Alfa (R. Bento Branco de Andrade F.º, 722, tel.: 5693-4000). Sexta e sábado, 21 h, domingo, 18 h. De R$ 15 a R$ 40.

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