Carol Sachs/Divulgação
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Nanini acima da categoria excelente

Em 'Pterodátilos', ele é prodigioso como pai de família e como a jovem Ema

Crítica: Mariangela Alves de Lima, O Estado de S. Paulo

22 Abril 2011 | 06h00

A revelação do invisível oculto sob o aparente é uma das promessas de toda arte. Não é sempre que a promessa se cumpre, mas a esperança de que há uma configuração que só começará a se definir na próxima página, sequência ou diálogo é um estímulo poderoso para o engajamento dos leitores e espectadores. A indústria cultural joga com essa esperança inventando enigmas e solucionando-os nos mesmos termos da proposição. Mas é nas artes que delimitam seu tempo de fruição, como o teatro, a música ou o cinema, que a emergência gradual de um desenho submerso se realiza no mesmo tempo em que é percebida.

Bons intérpretes de personagens ou partituras planejam a execução das obras trabalhando o ritmo, a intensidade e, no caso do teatro, o desenho e a localização das imagens em cena para ampliar a potência dos sentidos implícitos nas formalizações. Marco Nanini, contudo, ultrapassa em larga medida a categoria de excelência profissional implícita em "bons intérpretes". Em Pterodátilos, peça do norte-americano Nick Silver, a superfície aparente de uma das personagens que representa é a de uma mocinha de 15 anos experimentando a primeira decepção amorosa. Outra personagem é um pai de família no ocaso do seu reinado de provedor.

Nessas duas personagens - já representadas por Nanini em um palco paulistano há nove anos - a imagem de um homem envelhecido, alto e de voz potente e grave é o suporte físico das personagens, mas não constitui aquilo que, na linguagem da arte, é aparência. Ema, a mocinha que gostaria de acreditar nos sonhos pueris do amor romântico e da felicidade sexual, é o signo que recobre o ator desde o primeiro momento da sua entrada em cena. Por meio da convicção que impregna falas ingênuas, da timidez e desconforto com que ensaia a corte amorosa e também porque afirma ser uma jovenzinha, firma-se a convenção. Atores - sabe-se bem - podem fazer qualquer coisa e é imediata a imposição dessa personagem como uma realidade ficcional. Acreditamos que Ema, envergando um vestido branco debruado de rendas e um tanto enxovalhado pelo emprego abusivo que desgasta todos os clichês, é física e espiritualmente uma garota.

Pois é sob essa aparência que se desenha, com ossatura a um só tempo fina e firme, a figura maior da vacuidade existencial. Sob o impacto das negações que a narrativa impõe à personagem, a menina vai se desvanecendo. Aos poucos, a direção do olhar da personagem que se desloca do interlocutor em cena parece contemplar um fundo infinito. É uma indefinição que apazigua a palpitação do desejo adolescente e cede lugar a uma apatia que não se circunscreve a um sexo ou a uma idade determinada. Na conclusão da narrativa, a existência da menina torna-se uma convenção posta em dúvida. No lugar dos gestos estabanados de uma adolescente vai se configurando a desarticulação grotesca de uma enorme marionete, tropeçando nos buracos do palco e nos objetos de cena.

Nenhum traço do contorno se perde, mas o sentido se modifica. Trata-se ainda de uma menina porque a juventude desperta o terror e a piedade como a era da inocência no imaginário coletivo. Contudo, é outra coisa além de criança iludida, porque a interpretação vai aos poucos revelando o substrato comum entre as mais diversas utopias logradas. Na constelação da peça, a menina é a única que tenta acreditar em alguma coisa e esse débil farfalhar do desejo precisa viver em cena antes de extinguir-se. A interpretação de Marco Nanini é um prodígio de delicadeza e graça ao lidar com as fagulhas de esperança juvenil e é esse introito verossímil que torna mais pungente a revelação que vai se sobrepondo. Em situação de paralelismo rigoroso está a personagem do pai, um homem que não tem tempo nem história fora do universo do trabalho (é terno ou pijama) porque não aspira a coisa nenhuma.

Retornando à mesma peça em outro espetáculo (Os Solitários incluía outro texto do mesmo autor), o diretor Felipe Hirsch trabalha agora com uma escala menor, mais próximo da plateia. Não se alterou substancialmente o ângulo de abordagem da família criada por de Nicky Silver. Na perspectiva deste espetáculo, a sala de estar - espaço simbólico privilegiado pelo drama realista - é um lugar sem utilidade, ponto de cruzamento por onde perambulam figuras perplexas.

Quando se chocam, por acaso, compartilham o que têm do pior: vírus, álcool, cinismo ou estupidez. Em cada membro da família, por motivos diversos, trincou-se a película de civilidade que permite levar adiante um cotidiano banal e hipócrita. São figuras hiperbólicas no texto, mas Hirsch atribui-lhes uma dimensão quase operística. Expressam um tipo de crueldade estética tramada com movimentos nervosos e aparentemente dispersos, usam maquiagem que distorce os traços faciais e, de um modo geral, estão imersas em tonalidades escuras. Com exceção de Ema, única a ensaiar um fraco movimento à contracorrente, formam um pesado bloco estilístico inspirado na beleza soturna do gótico.

Daniela Thomas realiza o cenário literal que o texto de Nicky Silver propõe. Este meio de cultura chamado família se equilibra sobre um solo instável e fraturado. Trata-se de uma instituição ruindo no tempo do espetáculo e pode-se entrever o pó dessa dissolução recobrindo com uma fina camada restos de espécies de eras passadas.

PTERODÁTILOS - Teatro Faap. Rua Alagoas, 903, Higienópolis, telefone 2663-7233. 6ª, às 21h30; sáb., às 21 h;  dom., às 18 h. R$ 60 / R$ 80. Até 29/5.

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