NANÁ EM CLIMA DE ADEUS

Há 12 anos no comando da abertura da folia no Recife com os maracatus, ele pressente que hoje pode ser a última vez

LAURO LISBOA GARCIA, ESPECIAL PARA O ESTADO, RECIFE, O Estado de S.Paulo

08 Fevereiro 2013 | 02h07

As mulheres afinadas do grupo Voz Nagô entoam o coro: "Maracatu, maracatu. Eu vou mostrar pra vocês o maracatu". Baquetas na mão, de repente o mestre Naná Vasconcelos dá sinal para parar o segundo de dois ensaios gerais do show e ralhar com cerca de 500 jovens e crianças batuqueiros de várias nações de maracatu que vão fazer pelo 12.º ano consecutivo a abertura do Carnaval Multicultural do Recife, hoje à noite no Marco Zero. "Ritmo que atrasa não adianta", diz o percussionista. "Agora não é hora de competir. Estamos aqui para fazer o show de abertura do carnaval. Fazemos isso juntos há 12 anos e esta pode ser a última vez. Ninguém aqui toca sozinho. É preciso ouvir o que o outro está tocando."

O cortejo que Naná conduz pelo Recife Antigo, acompanhado de batuqueiros, reis e rainhas do maracatu, blocos de frevo e caboclinhos, além do Rei Momo, sai da Rua da Moeda, próximo de onde há uma pequena exposição sobre ele, o grande homenageado do carnaval deste ano ao lado do fotógrafo Alcir Lacerda (1927-2012).

Um dos méritos de Naná foi amenizar a rivalidade entre as nações de maracatu. "Nestes 12 anos mudou muito a cabeça deles", conta. O maracatu tradicional, que andava apagado, tornou-se o centro das atenções. "Isso quebrou barreiras. Hoje tem mulheres tocando, maestrinas, universitários, gente de classe média. Isso é bom para a cultura, para o Brasil conhecer o Brasil."

Todo ano ele visita cada nação e ensaia por partes até a reunião final no palco da festa. Em 2013 não foi diferente. Mas vai ser mesmo a última vez? "Este ano, pelo fato de eu ser homenageado, parece até que é a despedida", diz, rindo. "É uma faca de dois gumes: quando eu falo 'vamos tocar como se fosse a última vez' é um conceito pessoal, meu. Desde que eu tive aquele problema de saúde, que fui parar na UTI, cada vez que eu toco procuro dar o melhor possível de mim. E eu passo isso para eles", diz.

"Por outro lado, tem essa homenagem, começou uma nova gestão na prefeitura, já fiz isso 12 anos, não sei o que vem por aí. É uma intuição minha: parece que eles vão dizer 'basta do afro'. É como se fossem tirar os africanos para entrar os arianos", conclui, soltando uma gargalhada.

Além desse show, em que recebe o mineiro Milton Nascimento e a cantora portuguesa Carminho como convidados, Naná, que nunca passa o carnaval na cidade, fará outros com seu novo grupo Batucafro em palcos da periferia.

Além de composições de Naná, o grupo vai tocar batuques antigos "da época de Carmen Miranda", o que reflete a falta de renovação do repertório pernambucano de carnaval. "São músicas que têm um chamego, é mais brejeiro, dá pra dançar e tudo. A renovação que teve no frevo foi virar mais jazz, tocado com muitas notas. E isso não é frevo, perdeu a poesia, o romantismo, o lirismo. E no frevo-canção é a mesma coisa."

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