Naná da imagem e do som

No novo CD, músico mistura batuque com orquestra e tira sons da água

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2010 | 00h00

A música de Naná Vasconcelos sempre teve apelo visual, seja ao vivo ou em gravações. Quando ele convida o público a ir para a floresta nos shows você imagina toda a fauna e a flora em movimento. O número comovente e belo em que ele divide a plateia em dois, simulando a chuva abatendo-se intensa sobre um rio caudaloso, já virou clássico. No novo álbum, Sinfonia & Batuques (Independente), o percussionista pernambucano leva essa experiência a outras dimensões. "Isso é Villa-Lobos. É dessa maneira que ele me influencia. No Trenzinho do Caipira, parece que ele constrói o trem e coloca você na janela, olhando a paisagem do Brasil. Estou muito agarrado a isso: contar histórias através de sons."

A imaginação de Naná levou-o a simular um encontro harmônico de batuqueiros com uma orquestra de cordas. Esse é o eixo do novo CD, que abre com sons de água, tambor e violão, junta coro infantil, vozes femininas, quatro percussionistas além dele e a Orquestra Experimental de Câmara. Até a filha de Naná, Luz Morena, de 11 anos, aparece tocando piano e como autora de duas vinhetas e um tema mais longo, Canção para Nanili.

Mistura dos extremos. Além das próprias composições Naná deu sua versão para o maracatu Recife Nagô, do pernambucano J. Michiles. Mestre inovador do berimbau, ele toca o instrumento em apenas uma faixa do CD desta vez. É na adaptação de Santa Maria, bela canção de seu amigo angolano de apelido Kituxi, que remete a Villa-Lobos e versa sobre a questão da morte.

"Às vezes você ouve mais o batuque, às vezes mais a orquestra, mas ninguém atrapalha ninguém", diz Naná. Gosto muito de misturar os extremos, acho que tudo é possível, o erudito com o popular, o Sul com o Nordeste." No carnaval do Recife, Naná já uniu os maracatus com orquestra sinfônica, mas é a primeira vez que junta essas pontas em disco. "Nem nunca ouvi algo parecido com isso."

Em três faixas, Menininha Mãe (homenagem à mãe de santo baiana Mãe Menininha do Gantois, que abre o CD), Lamentos e Batuque das Águas - Aquela do Milton ele utiliza células rítmicas obtidas a partir de experiências percussivas aquáticas.

"Tive a ideia na praia. Depois, na piscina de casa, fiquei com água até a altura do peito e comecei a estudar essa coisa. A ideia foi se desenvolvendo, botei os microfones, gravei e editei as células rítmicas no computador. Só depois compus a melodia e concebi o arranjo", diz, sobre Menininha Mãe. Em Lamentos, a ideia foi reproduzir sonoramente o porão de um navio negreiro, como se os escravos ouvissem as pancadas da água no casco.

A outra é adaptação de um tema antigo, que ele gravou no álbum Bush Dance, de 1987. "A música se chamava Aquela do Milton, porque realmente se parecia muito com o estilo dele. Tinha muita influência, estive muito envolvido nas gravações de vários discos dele, como Clube da Esquina e Milagre dos Peixes, e ele sempre me deu total liberdade."

Elementos naturais. No xaxado Pó de Chinelo, o que se ouve é fricção do próprio chinelo de Naná com areia, num piso de madeira. "Tem muito a ver com os elementos da natureza - água, terra, fogo, ar - até chegar ao Chorrindo", diz Naná, soltando sua famosa gargalhada. Nessa faixa, ele utiliza a voz de forma percussiva, fundindo expressões de riso e de choro. Antes Naná tinha feito experiência semelhante gravada para o projeto Sementeiras - Sons da Percussão, ao lado de Marco Suzano, Caíto Marcondes e o grupo Coração Quiáltera.

A diversão continua em Pra Elas, um contagiante batuque de samba em homenagem às mulheres, na base de pandeiro, surdo, cavaquinho e trombone, com uma letra sensual, simples e direta que gruda no ouvido: "Requebra, requebra que eu quero ver/ Neguinha dengosa requebra que eu quero ver/ Lourinha manhosa requebra que eu quero ver". Nas comunidades do Recife por onde Naná circula, já está todo mundo cantando e fazendo o papapará do trombone com a boca. "Rapaz, isso pega."

Não se trata, como diz o próprio Naná, de um mero disco de percussionista. "É mais uma concepção minha da utilização da percussão, como se fosse elemento de uma orquestra. Não é para fazer ritmo, ou coisa assim. Meu trabalho é isso: acho que a percussão não atrapalha a música erudita. Sinfonia & Batuques é isso."

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