Paulo Vitor/AE
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Nana Caymmi, rainha da noite

Documentário de Georges Gachot sobre a cantora ultrapassa a retratada e abarca a família toda

Luiz Carlos Merten / RIO, O Estado de S.Paulo

29 de setembro de 2010 | 00h00

Depois de dois retratos de artistas - grandes cantoras que extravasam na voz a alma brasileira, Maria Bethânia e Nana Caymmi -, o diretor franco-suíço Georges Gachot acha que pode requerer sua cidadania no País. Ele se sente brasileiro no coração, convertido, ou cooptado, pela música. Gachot exibiu na segunda à noite, no Festival do Rio, seu documentário Rio Sonata, sobre a filha de Dorival Caymmi. Nana, acompanhada do irmão Danilo, estava na plateia, ao lado do ex-marido (e eterno namorado), Gilberto Gil. Beijaram-se no palco, juraram amor eterno, Gil agradecendo o privilégio de ter pertencido a essa família.

Rio Sonata dá voz a Nana para que ela cante e conte histórias. Carioca - do Grajaú -, ela se refere em vários momentos às zonas de risco da cidade, as Faixas de Gaza, mas deixa claro que ama a cidade. O Rio é coisa de cinema, anuncia uma das peças publicitárias do festival. Uma vinheta admirável, criada pelo animador Carlos (A Era do Gelo) Saldanha, antecipa o que será o sonhado desenho do cineasta, sobre um papagaio, uma nova versão do Zé Carioca?, para falar das relações entre EUA e Brasil. A vinheta é uma pequena (pela duração) obra de arte.

De volta ao Rio de Nana, ela evoca suas raízes baianas, o encontro com os tropicalistas, sua rejeição ao movimento - "Tiveram de me explicar, porque eu não entendia" - e a preferência pela canção de fossa e pela bossa nova. Nana canta com Tom Jobim, Maria Bethânia, Miúcha. Expõe suas origens clássicas - o amor por Clair de Lune, de Debussy - e evoca o pai, Dorival. É também um retrato de família, sobre como ela se relaciona com os irmãos, e como Dori compôs músicas belíssimas para sua interpretação. Ouvindo uma delas, enquanto joga cartas, ela exclama - "Me adoro cantando isso!" Nana não poupa os palavrões. Diz "pqp" uma dezena de vezes. Considera-se privilegiada porque o pai compôs para ela, que não conseguia dormir, Acalanto.

O festival agita-se. Ontem, foram exibidas duas joias francesas. No Odeon BR, o vencedor de Cannes, Uncle Boonmee Who Can Recall His Past Lives. Quando o filme do tailandês Apichatpong Weerasethakul começou a rolar na tela, já fazia mais de uma hora que, em outra sala, a Estação Botafogo, o público já assistia ao monumental Carlos, de Olivier Assayas, com suas cinco horas de duração, outra atração do Festival de Cannes neste ano. Ambas irão para São Paulo, na Mostra, você não perde por esperar. A "peculiar" estrutura narrativa de Uncle Boonmee acompanha esse homem à beira da morte que se recolhe numa fazenda, na floresta tropical. O tio Boonmee consegue se lembrar de suas vidas passadas.

Quebra de tom. Como em Doença Tropical, do próprio Apichatpong - que os tietes chamam de "Joe" -, o artista recorre a sugestivas quebras de tom. Entra a história misteriosa dessa princesa que faz sexo com o peixe, como o caçador perseguia o tigre em Maladie Tropical. Assayas, representado por seu produtor, não viaja num imaginário poético. Nem poderia - com Carlos, ele viaja no terrorismo internacional dos anos 1970 e 80, por meio do lendário Chacal. É um filme impressionante, que vai muito além de uma condenação dos métodos do personagem - e do terrorismo em geral -, para traçar o retrato de uma época.

Na diversidade das obras que integram a programação, o público tem assistido a filmes como O Garoto de Liverpool, de Sam Taylor Wood, sobre o jovem John Lennon, que vive com a tia autoritária e se refugia no rock; Minhas Mães e Meu Pai, de Lisa Cholodenko, sobre casal de lésbicas cujos filhos procuram o pai biológico. Entra em cena Mark Ruffalo, que desestabiliza a ligação de Annette Bening e Julianne Moore, até ser expulso de casa pela primeira. Em Berlim, em fevereiro, a diretora disse ao repórter do Estado que não fez o filme por ser lésbica, mas porque estava cansada da frivolidade da série Sex and the City, que ajudou a criar, e estava interessada numa história mais humana (e comprometida socialmente).

O filme mais "chocante" da seleção, pelo menos até agora, passa na mostra Meio Ambiente. The Cove, de Louie Psihoyos, que venceu o Oscar de documentário, traz imagens, captadas clandestinamente, do sangrento abate de golfinhos na Baía de Taiji, no Japão. Outras atrações - Filme Socialiste, de Jean-Luc Godard; Somewhere, de Sofia Coppola, etc. - já estão com ingressos esgotados, mas passam só na segunda semana do festival, que vai até dia 7.

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