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Namorados, etc.

Do alto da estrada, vi Cachoeira e São Felix, cidades do Recôncavo Baiano, unidas por uma ponte antiga sobre o rio Paraguaçu. Ali em cima, há feios conjuntos habitacionais, um casario humilde e o edifício suntuoso de uma faculdade cristã, não sei se evangélica ou adventista.

Milton Hatoum, O Estado de S.Paulo

04 Novembro 2016 | 03h00

No calor do meio-dia, jovens namorados saíam de mãos dadas da faculdade; as moças, de saia longa preta e blusa branca de manga comprida, nada ofereciam à fome do olhar, que era apenas a fome efêmera de um passeante curioso. Mesmo assim, pouco ou nada ofereciam, nem mesmo tornozelos sem meias. Os rapazes, engravatados, usavam paletó e sapatos pretos. E os solitários, com trajes semelhantes, seguravam uma Bíblia de capa preta.

Não notei esse pudor nem essa fé fervorosa na minha primeira visita ao Recôncavo. Eu era um jovem universitário, e o Brasil não dava sinais ostensivos de que seria uma triste república de pastores, em que milhões de fiéis só leem a Bíblia e, o que é mais temeroso, leem o livro sagrado ao pé da letra, guiados por pastores e “bispos”, não poucos ávidos de dízimos e de poder político...

Lá embaixo, no centro histórico de Cachoeira, fui ver a Capela de Nossa Senhora da Ajuda, uma das joias da arquitetura colonial da Bahia e do Brasil. A capela, no alto de uma colina suave, fica perto de outro edifício colonial, cuja calçada é sombreada por uma árvore imensa. Entre a igrejinha e edifício, uma larga passagem revestida de pedras dá ao conjunto arquitetônico um ar ibérico ou andaluz. Mas a ocupação do espaço, com seus rituais e pessoas, traduz nossa mestiçagem cultural. Exemplo disso é a festa da Irmandade da Boa Morte, de que participam mulheres descendentes de escravos, um ritual sincrético que existe há dois séculos, sempre em agosto.

Fiquei admirando a capela, restaurada pelo Iphan no ano passado. O pequeno templo, todo branco sob um céu azul, é modesto em tudo: o tamanho do volume, a torre piramidal, o óculo no centro do frontão, o belo frontispício com linhas simétricas. Nos degraus que dão acesso ao alpendre, uma moça de bermuda e camiseta regata pousava as pernas sobre o colo do namorado, um jovem também de bermuda, dorso nu. Namoravam numa espécie de malemolência felina, com gestos lentos, sensuais e elegantes, alheios aos frequentadores do pequeno templo católico. Esses fiéis subiam os degraus e entravam na nave, sem se incomodar com a presença dos enamorados no começo da tarde abrasiva. Apenas uma senhora olhou o casal com um ar de reprovação, parou no alpendre e disse para mim: “Tanto lugar pra namorar, e esses aí escolheram uma igreja”.

Ri do comentário; a mulher balançou a cabeça e acabou rindo, num gesto de tanto faz.

Fui ao mercado de Cachoeira, andei pelo centro da cidade e subi a colina para ver mais uma vez a capela. Os namorados ainda estavam lá, agora adormecidos, inertes num gesto de estatuária sensual. Mas alguma coisa nova deve ter acontecido nesse namoro vespertino, pois haviam trocado de posição...

Não sei se louvam a deus ou adoram uma divindade pouco conhecida. Sei apenas que são humildes amantes baianos nos degraus de pedra de um santuário, e isso os torna mais livres e talvez mais felizes.

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