Nadine e a beleza das libanesas

Atriz e diretora de Caramelo e E Agora, Onde Vamos? é a estrela do Festival Varilux, que atinge 33 cidades do País

LUIZ CARLOS MERTEN / RIO, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2012 | 03h14

Ela é um assombro. As fotos não dão conta da beleza de Nadine Labaki. A vontade é só ficar olhando, não para decifrar o mistério daqueles olhos claros - que não são de ressaca -, mas para mergulhar neles, como no mar. Nadine Labaki está sendo a grande estrela desta edição do Festival Varilux do Cinema Francês, que prossegue até dia 23 em 33 cidades brasileiras. No Rio, ela participou anteontem de debates com o público, após a exibição de E Agora, Onde Vamos?, seu longa premiado pelo júri ecumênico no Festival de Cannes do ano passado. Só para lembrar, Nadine também estrelou e dirigiu Caramelo, que foi um grande sucesso em todo o mundo (e permaneceu muito tempo em cartaz na cidade, na Reserva Cultural). Nadine, que volta hoje à França, está (esteve) no Brasil com o marido, o compositor Khaled Mouzamar, que lá pelas tantas se integrou à entrevista, como você vai ver.

Não para fazer charme, ela conta que a visita ao Brasil é a realização de um sonho. "Bem antes de Khaled, eu já era ligada nesse universo musical e a música brasileira sempre foi muito atraente para mim. Um pouco pelo ritmo, a poesia, mas o que sempre me fascinou foi a musicalidade das vozes. Estou adorando ver vocês, brasileiros, falarem. É música para o ouvido." Ela admite que tinha certo receio, não medo. "Quem foi criada e até hoje vive em Beirute, como eu, sabe o que é a violência urbana. Nada mais me surpreende. Hoje mesmo (a entrevista foi feita na quinta-feira à tarde), falando com o pessoal de casa, me disseram que o acesso ao aeroporto foi fechado por causa de tiroteios. O receio era mais por se tratar de outro mundo, outra cultura, e distante. Vi pouca coisa do País, mas a cordialidade é flagrante. Vocês sorriem para todo o mundo, Alá é grandioso!"

E Agora, Onde Vamos? nasceu do seu desejo de refletir sobre a violência no Líbano. "Em 2009, numa questão de horas, o país soçobrou numa onda de violência. Queria falar sobre isso, e começou a se desenhar a história sobre uma mãe e até onde ela está disposta a ir para defender os filhos." Como Caramelo, Et Maintenant, on Va Où? foi escrito por Nadine em parceria com dois amigos. "Nunca partimos de uma história. Eu queria falar de violência e seus efeitos sobre pessoas, sobre mulheres. A gente vai jogando ideias e os filmes nascem assim." Como dois homens podem ajudá-la a refletir sobre o universo feminino? Por acaso, são gays? "Nããããoooo. Bem, para falar a verdade, um deles é, mas são ambos muito sensíveis, e isso é fundamental."

Caramelo era sobre um salão de beleza, E Agora, Onde Vamos? é sobre um vilarejo destroçado pela guerra. Como surgiram esses espaços? "Em Caramelo, criei o salão inspirada na cozinha de minha casa, que era um espaço feminino, interditado aos homens. As mulheres preparam os alimentos, cozinham, mas também conversam (sobre homens), fazem depilação, as unhas. E Agora?, neste sentido, foi muito mais difícil. Tenho uma pequena cidade e, para reproduzi-la, o set é muito maior. Os problemas são muito maiores para administrar. Inconscientemente, ou não, o set de Caramelo, tão pequeno, me preparou para o tamanho do de E Agora, Onde Vamos?"

O marido, que chega, diz que ela é outra pessoa no set. "Às vezes, ela consegue ser muito chata. Nestes momentos, sempre digo que preferiria que ela estivesse filmando." Ele compôs a música dos dois filmes antes, acompanhando o processo de escritura do roteiro. "A música de E Agora? mistura Oriente e Ocidente, como o próprio filme celebra elementos das cultura cristã, árabe e bizantina. Era fundamental que o multiculturalismo passasse pela trilha. Eu visualizava lendo o roteiro e Nadine já tinha a música na hora de filmar. Foram simbioses muito enriquecedoras."

Os homens nos filmes de Nadine são charmosos, viris - o policial de Caramelo, o construtor civil de E Agora? "Não os escolho pela beleza, não. O que busco são marcas, homens que consigam transmitir alguma coisa no olhar. Dor, sofrimento. Qualquer mulher madura vai lhe dizer que são os homens mais interessantes." Ela se baseou livremente em Lisístrata, a peça de Aristófanes, sobre uma greve do sexo das mulheres de Atenas. "Mas não li a peça. Me interessava só o conceito." Greve do sexo na vida? "Vou fingir que não ouvi a pergunta." E ri um sorriso lindo. Em dois meses, Nadine começa a escrever o próximo filme. Será sobre o quê? "Tenho ideias, mas vai depender das sessões com meus amigos roteiristas."

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