Nada menos que extraordinário

Pedro de Almeida conduz o ritual fúnebre de uma pessoa que - dizem - morreu com a idade de 120 anos. O enterro de João Batista, com todos os seus preparativos, serve de mote a um mergulho no imaginário sertanejo, conduzido por um personagem de sonho, o tal Pedro, que parece saído diretamente das páginas de Guimarães Rosa para a vida real. Quem teve a felicidade (e a arte) de filmá-lo em ação foi Rodrigo Siqueira, diretor de Terra Deu, Terra Come, um documentário que só pode ser definido como extraordinário.

Crítica: Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

01 de outubro de 2010 | 00h00

O funeral serve a Pedro para, através do seu rico monólogo, refletir sobre a vida e morte, sobre a condição do homem e seus limites, sobre a vida no sertão, o garimpo, a busca da riqueza e da felicidade, a crença num outro mundo para além dos sentidos, etc. Enfim, engendra, no verbo inspirado, toda uma cosmogonia do sertão, da mesma forma que o imaginário Riobaldo faz na obra-prima de Rosa, Grande Sertão: Veredas. Ao mesmo tempo em que Pedro se entrega ao cerimonial e sua fabulação, toda uma vertente do rito fúnebre sertanejo vem à luz, com seu choro das vizinhas, a presença das carpideiras, comentários jocosos em meio ao luto, danças e tradições, tudo isso que daria ao filme um caráter etnográfico - caso ele não se valesse de procedimentos que o fazem transbordar dos limites do campo observacional e invadir generosamente as margens da ficção.

Sim, porque, à sua maneira, Terra Deu, Terra Come entra na discussão contemporânea sobre os limites entre documentário e ficção. Há quem diga que se trata de assunto encerrado - os limites seriam mais do que flexíveis e fim de papo. No entanto, como esse tema exibe uma invejável capacidade de retorno ao debate, não parece de forma alguma fora de propósito colocá-lo em pauta ainda uma vez, como faz o diretor Rodrigo Siqueira. O espectador verá que a maneira como isso é feito lhe parecerá bastante surpreendente e original, sobretudo no desfecho do filme. Por outro lado, a aproximação de Terra Deu, Terra Come e seu personagem central com Riobaldo e Rosa não é gratuita. Ao recordar suas aventuras de garimpeiro, Pedro lembra de um diamante precioso, desaparecido, e cogita se João Batista teria ou não feito um pacto com o Diabo. O leitor de Rosa lembrará nessa ruminação a dúvida central, a angústia fundamental do protagonista de Grande Sertão: Veredas. Esse é o imaginário sertanejo, que o escritor recolheu em suas andanças e depois reelaborou em sua prosa de gênio. Esse imaginário está lá, entranhado, nos riachos e buritis das Gerais, qual pedra bruta. Siqueira o garimpou, mais uma vez.

Trailer. Veja trechos de Terra Deu, Terra Come

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