Imagem Ignácio de Loyola Brandão
Colunista
Ignácio de Loyola Brandão
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Nada existiu. Tudo será reescrito

'Só existe um remédio neste país.' E me entregou o vidro de bicarbonato de ódio

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S. Paulo

09 Novembro 2018 | 02h00

Levei uma chibatada, o homem gritou:

“O senhor não sabe que essa letra é permitida?

“Foi proibida o senhor quer dizer.”

“Outra pergunta como esta e o senhor vai preso.”

Fiquei ali encolhido, a chibata tinha doído, provocou um hematoma em meu braço, pode ser mesmo que tenha partido um ligamento.

“Por que usou essa letra?”

“O P? Não pode? Precisava dele para a palavra.”

“Nunca diga não pode. O P não é permitido. Qual era a palavra que o senhor pretendia escrever ?”

“Proibido, não permitido. O sentido é o mesmo. Quem não permite letras e palavras?

“O senhor exagera. Já o adverti. Perguntas como essa podem leva-lo à prisão.”

Ele ergueu-se, era magro, talvez eu pudesse enfrentá-lo, dar-lhe uma surra. Deveria atacar antes que ele levantasse a chibata. Mas e o medo? Será que todos estão sentindo o mesmo? Um coisa estranha que nos faz ter medo de virar a esquina, subir no metrô, parar diante da porta, tomar um copo de cerveja, pedir um sanduíche que esteja na lista. Minha vizinha de apartamento foi levada simplesmente porque alinhavou o vestido com uma linha não permitida.

O homem da chibata me olhava.

“Não vai contar a palavra que pensava escrever?”

“Esqueci.”

“Sei que começa com P. E o resto?

“Tantas palavras começam com P.”

Uma bela chibatada no rosto, ardeu. Deve ter me cortado. As pessoas começaram a chegar, a olhar, a rir.

“Quer mais? Qual seria a palavra? O que viria depois do P?”

“Pá, paca, pacato, pacenho, pachola, pachorra, paciência paciente, pacificar...”

Nova chibatada.

“Pacífico, pacifismo, paço, pacoba, paçoca...”

Quatro chibatadas, perdi a fala.

“Diga ou pode morrer.”

“E se digo e você me mata?”

“Diga que depois do P viria o E, e depois do E viria o N, e depois dos N, viria o S...”

Seis chibatadas.

“O senhor é que está formando a palavra proibida.”

“Termine a palavra que sei que você ia dizer e você sabe que não é permitida.”

“Não, não sei mesmo. Por que o senhor faz isso?”

“Porque devo fazer. Estamos autorizados a tudo.”

Imaginei que estivesse sonhando, mas as chibatadas tinha sido dolorosas, aquilo não podia acontecer.

“Autorizados? Por quem? Quem autoriza uma coisa destas?”

“Ele. Só Ele tem tanta autoridade.”

“Ele? Ele quem?”

O homem da chibata ficou uma fúria, me deu duas, três chibatadas, tirou sangue da minha cabeça, as pessoas em volta continuavam a rir e a gritar: ele não sabe quem é Ele, ele não sabe. Todos sabem menos ele.

“Agora vou ter de te levar. Não tem jeito.”

“Me levar. Para onde? Por que?”

“Essa é a pior pergunta que uma pessoa pode fazer a um de nós. Por que? Não existem respostas. Ele nos autorizou a tudo. Com Ele, tudo mudou. O que era, não é. O que houve, não houve nem haverá. Já estão reescrevendo todos os livros, todos os textos, todos os documentos.”

Dizer o que? Saber o que? Perguntar o que? Quem é este homem, por que ele faz o que está fazendo? Onde vai chegar isto? Ele quase disse a palavra que acha que eu ia escrever. Faltavam apenas duas letras. Amigos passam, olham e seguem rápido, como se fosse perigoso me conhecer, reconhecer. O furioso me agarra pelo braço.

“Vamos. Sei as letras que faltam. Você pensa nelas. E não é permitido pensar.”

“Não vou para lugar nenhum. Tenho de voltar para casa.”

“Não vai voltar hoje. Pode ser que não volte nunca. Ou melhor, talvez eu não te pegue hoje, mas amanhã ou depois, eu ou algum outro te pegará de jeito.”

“E...?”

“O senhor está me provocando. Preciso ir, não posso gastar tanto tempo com cada pessoa. Não posso te deixar ir com esta dúvida. Diga, as letras que faltam eram o A e o R? Diga...”

Com um grito de raiva, foi embora. Ninguém se moveu, ninguém disse nada, ninguém me perguntou se estava bem ou mal. Quero correr para casa. No caminho, passei em uma farmácia, pedi alguma coisa contra náusea. O atendente:

“Só existe um remédio neste país. Quer?”

Ele me entregou o vidrinho de bicarbonato de ódio.

“De ódio ou de sódio? ”

“De ódio meu senhor, de ódio.”

Estou todo lanhado, mas não disse a palavra. Pensei nela, mas não disse. O que Ele mandou fazer comigo, dirá que não fez. Mas Ele sabe que fez e sabemos que ele sabe.

Mais conteúdo sobre:
Brasil [América do Sul]

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.