Nada de novo

Acontece com qualquer um. Você acorda às 4 da manhã, estende a mão ainda com os olhos entreabertos e puxa uma revista Piauí da mesa de cabeceira. O número é de dezembro de 2010.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

08 de agosto de 2011 | 00h00

Levanta com o refrão de Nada de Novo na cabeça, vai até a morada do Paulinho da Viola na sua estante e descobre que o ilustre membro da realeza carioca está misturado a más companhias. Quem pode ter colocado o Paulinho junto com amostras de CDs promocionais de axé music?

Vai fazer café e descobre duas caixinhas de leite na geladeira. Uma expirou quando Antonio Palocci ainda era ministro.

Basta. É hora de colocar ordem nos seus afazeres. Uma casa-escritório é um convite à anarquia.

"Papéis sem conta sobre a minha mesa/ O Vento espalha as cinzas que deixei."

Só porque um tripé de câmera, com seus ganchos, é um ótimo suporte para secar roupa íntima, isso não quer dizer que deva se transformar num varal improvisado. Menos ainda quando um solene acadêmico, que concordou em dar entrevista de manhã, bater à sua porta meia hora antes do combinado.

O leitor reconhece esse impulso sazonal? A urgência de restaurar ordem na casa e na existência? No clima temperado americano, com suas quatro estações definidas, cunhou-se a expressão "limpeza de primavera". É uma expressão mais associada a casas suburbanas espaçosas, com quintais e garagens, onde se acumula o desnecessário. Em Manhattan, a acumulação é vertical e o conceito de desnecessário ganha nova elasticidade. Mas o impulso é o mesmo e o leitor há de se identificar com a sensação de calma trazida pela reorganização física e mental. Nosso cotidiano se complicou tanto (ou serão os neurônios em retirada?) que dependemos cada vez mais de listas. Mãos à obra:

1 - Anunciar no site eBay, a coleção vintage de buttons da campanha presidencial de 2008. Sim, parece cedo para usar o adjetivo "antigo" mas Yes We Can (Sim, Podemos), Hope (Esperança) e Change You Can Believe In (Mudança na Qual Você Pode Acreditar) soam distantes como o otimismo de uma heroína de Jane Austen.

("Perdido enfim confesso /Até chorei/ Nada mais importa/Você passou/ Meu samba sem razão/ Se acabou".)

2 - Traduzir o nome dos tea partiers, a direita festiva que sequestrou o país durante a negociação da dívida pública, como chafestivos, sob sugestão do colega Sérgio Augusto. Tea Partier é feio, argumenta, com razão, o augusto Sérgio.

3 - Colocar algum dinheiro debaixo do colchão. Muito óbvio. Tirar o dinheiro debaixo do colchão e esconder na lata de biscoitos - vazia - é claro, porque estamos no dietético século 21 e comer biscoito é uma violação de alguma convenção internacional. A bolsa despencou - tirar o dinheiro da lata e comprar letras do Tesouro Americano. A bolsa subiu um pouco - vender as letras do Tesouro e comprar ações de uma nova empresa da internet que vai tornar a Netflix obsoleta, carregando filmes de Hollywood direto na nossa caixa craniana.

4 - Marcar duas sessões seguidas com um terapeuta existencial para dar tempo de aliviar a angústia sobre questões variadas:

Posso continuar chamando os milionários de ricos ou devo adotar o neologismo dos chafestivos, que só se referem aos ricos como "provedores de empregos"?

Por que a mídia e a comunidade médica não entram num acordo sobre a necessidade e a frequência ideal das mamografias?

Violações da Convenção de Genebra em prisões privatizadas, prospecção de petróleo no Oceano Ártico, perfuração por fracking para extrair gás em Nova York sob risco de contaminar o abastecimento de água potável - alguém pode me informar se algum bem comum não está à venda?

5 - Domar meu impulso Pollyanna de acreditar que há alguém em Washington com coragem para fazer a reforma do seguro saúde se tornar realidade. Separar R$ 1.500 por mês para pagar um seguro que nem dá direito de ser atendida num consultório médico.

Pensando bem, é melhor não fazer listas, não se debruçar sobre a contabilidade do desencanto.

É difícil escapar do filósofo da Portela: "Não sei pra que a gente fica desse jeito".

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