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Nada de excesso

Carreira de Ermanno Olmi se constrói a partir de cenas com o gesto exato

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

16 Setembro 2013 | 02h18

Existem diretores (autores) que gostam de fazer filmes quase sem histórias e ontem o Caderno 2 celebrou um deles, o japonês Yasujiro Ozu, pegando carona no lançamento de uma caixa de DVDs com cinco de seus clássicos. "Os filmes de enredos elaborados demais me aborrecem. Naturalmente, um filme deve ter uma estrutura própria, mas acho que, para que seja bom, é preciso renunciar ao excesso de drama e de ação." A frase, reproduzida por Jean Tulard em seu Dicionário de Cinema - no verbete dedicado a Ozu - poderia ser de Ermanno Olmi. E Tulard, por sinal, reproduz uma frase de Olmi em seu verbete sobre o diretor: "Um dos defeitos do cinema é o de não fazer parte do mundo real. A maioria dos diretores fecha-se em estúdios. Eu me sinto bem em meio a pessoas simples que produzem a cultura, porque é vivendo que são testemunhas de sua existência".

O repórter lembra a Olmi sua frase e, do outro lado da linha, na Itália, o velhinho de 82 anos emociona-se. Campeão do despojamento, ele já foi chamado de 'Robert Bresson italiano' e não é que o rótulo lhe desagrade, mas Olmi cita o testemunho daquela funcionária no Lido, durante o Festival de Veneza de 1961, para dizer que, na verdade, seu cinema tomou essa forma particular - minimalista, rigorosa - para ficar perto da vida. Olmi não nega que sua herança era neorrealista nem que existe um elemento autobiográfico em Il Posto. "Comecei a trabalhar garoto na empresa Edison/Volta. Tornei-me cineasta antes de ser chefe de seção. Passei boa parte de minha vida como funcionário."

Mas, para contextualizar seu filme, Olmi reporta-se às condições específicas da Itália, por volta de 1960. "Havia muita miséria no campo, onde ainda predominava uma estrutura agrária e, por outro lado, as cidades se industrializavam e cresciam, provocando migrações internas de gente sofrida em busca de uma vida melhor." O repórter cita para Olmi seu filme preferido, Rocco e Seus Irmãos, de Luchino Visconti. "É um grande filme, mas diferente do meu. No de Visconti, a família rompe com a vida no Sul agrário e parte para o Norte industrializado. É uma ruptura sem volta, que vai destruí-la, internamente. No meu filme, Domenico pega um trem nas cercanias de Milão e vai tentar a sorte num concurso na cidade. Pela proximidade, ele se manterá ligado ao 'paese'. E, por isso mesmo, será sempre tímido, inclusive ou principalmente, com as mulheres da cidade."

Como essa Antonieta, que também presta concurso e por quem se apaixona. Na tela, os mundos de Domenico e Antonieta tocam-se superficialmente e ela se afasta dele. Na vida, Olmi, então com 30 anos, casou-se com sua atriz de 15, Loredana Detto. Quem fazia Domenico era Alessandro Panseri. "Gosto de trabalhar com não profissionais, e ocorreu de o nosso filme ter alcançado projeção. Inesperadamente, Loredana foi lançada no meio de um turbilhão. Parecia tão indefesa. Fiz o que me parecia correto para protegê-la - casei-me com ela." Geraram uma prole ligada ao cinema - os filhos Fabio e Elisabetta tornaram-se, respectivamente, diretor de fotografia e produtora.

Olmi admite que, embora a tradição neorrealista ainda fosse muito forte, não fazia mais sentido filmar como Vittorio de Sica em Ladrões de Bicicletas, 13 anos antes. Mas ele buscou em Il Posto um estilo quase documentário, baseado, como diz, "no gesto justo". Nenhum excesso. E, embora a companhia para a qual Domenico presta concurso nunca seja nomeada, ele não nega que tenha se baseado na própria experiência na Edison/Volta. Lembra que foi lá mesmo que se fundou, mais tarde, o grupo 22 de Setembro, integrado por Damiano Damiani e Gianfranco de Bosio, que lhe permitiu continuar fazendo, como queria, os filmes que desejava.

O diretor sempre teve uma ligação forte com o tempo. "Todos os meus filmes se inscrevem no tempo, no seu tempo, mas criam um tempo deles, que é o cinematográfico. Em Il Tempo Si È Fermato, filmei a natureza e, em A Árvore dos Tamancos, o ritmo das estações. Mas é diferente seguir o tempo ligado à terra - à chuva, ao vento, ao sol - e vê-lo passar preso à mesa de um escritório." É por isso que quando Domenico, no final, ganha uma promoção - e o 'posto' definitivo -, o espectador se pergunta se ele não estará ingressando num pesadelo kafkiano, ficando preso ali para sempre. Os longos corredores e uma certa abstração, na definição do ambiente e da atividade, reforçam a ideia.

Nenhum outro autor filmou tanto o trabalho como Olmi. Seus personagens são sempre trabalhadores - agricultores, camponeses, funcionários. O tempo dos filmes se constrói no de suas atividades. São sempre solitários, até no lazer. O baile de Il Posto é tudo, menos eufórico. Isso pode assustar algum espectador potencial, mas ele estará se privando de conhecer uma obra de rara beleza. Filmando contra a corrente - o cinema de gêneros dominante na Itália -, como Olmi conseguia sobreviver (e filmar)? "Fazia publicidade." Como? Seu estilo não poderia ser menos publicitário. "Minha publicidade era para um programa chamado Carrossello. Pequenas histórias de gente. Fazia duas ou três por ano e estava com a vida ganha." Podia-se dedicar a seu cinema tão especial. Vários desses pequenos filmes podem ser resgatados no YouTube.

O EMPREGO

Direção: Ermanno Olmi

Elenco: Alessandro Panseri e Loredana Detto

Distribuidora: IMS (R$ 47,90)

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