Na vida há naufrágios e naufrágios

Na vida há naufrágios e naufrágios

Poética é a verdade que se depreende da leitura da obra de arte que ficcionaliza (e não apenas registra) a realidade. Ao contrário, por exemplo, do filme documentário, a ficção não entrega ao leitor os fatos nus e crus, de responsabilidade dum indivíduo ou dum grupo que tenha passado pela experiência concreta de situação dramática específica. Entrega-lhe uma fabulação original, cujo epicentro apenas toca, e muitas vezes de modo metafórico, na experiência pessoal do artista. Eventualmente, os pormenores do drama humano a ser ficcionalizado podem ser tomados da vida concreta de outro. Pelo uso literário da linguagem, que estiliza pessoas e fatos, compete ao autor ser convincente na sua fabulação. Pelo artesanato, investe o drama representado na obra de alta taxa de verossimilhança.

Silviano Santiago, O Estado de S.Paulo

03 de abril de 2010 | 00h00

Daniel Defoe, autor do romance Robinson Crusoé (1719), nunca passou pela experiência trágica do naufrágio em alto-mar. Isso não o impediu de escrever um notável romance sobre os riscos que correm os marinheiros e suas caravelas em viagens intercontinentais. Ao navegar pela vida, ele conheceu outro tipo de naufrágio, o financeiro, e outro tipo de agruras, as por que ele e outros 18 "merchant insurers" passaram em mãos dos credores. Em 1692, Defoe ficou a ver navios por causa de bancarrota no ramo de seguros. Por ter garantido os riscos de embarcações britânicas em guerra com a França, a pequena fortuna amealhada foi por água abaixo.

A história dum europeu solitário, arribando por obra da Fortuna em longínqua ilha deserta, lhe foi sussurrada pela experiência dum compatriota, Alexander Selkirk. Em setembro de 1704, depois de altercação com o comandante da caravela, Selkirk foi desembarcado em Más, ilha do Pacífico, situada a 640 quilômetros de Valparaíso, no Chile. A ilha que enfrentou o recente tsunami é hoje conhecida, por ironia da arte, como a de Robinson Crusoé. Em 1709, Woodes Rogers, comandante de outra caravela britânica, desencavou Selkirk do exílio consentido e o levou de volta à pátria. Woodes narra por escrito a vida do marinheiro numa ilha deserta do Pacífico.

Nessa história, ninguém passa pela experiência do naufrágio. Este foi certamente sugerido a Defoe pelas mil e uma narrativas de viagem marítima que se tornaram imperiosas no período áureo de colonização do mundo pela Europa, de que é bom exemplo a História Trágico-Marítima (1735), de Bernardo Gomes de Brito. Só a pequena fortuna de Defoe é que naufragou com os navios em guerra na Mancha.

A originalidade de Defoe está na fabulação, ou seja, no modo como ficcionaliza as aventuras de Selkirk, ou de qualquer náufrago. A natureza em revolta expulsa Robinson da vida material europeia. Vive só na ilha e em penúria, mas é livre. Desprovido das benesses da civilização, tem de partir do zero e do próprio trabalho para sobreviver. Sob a forma de drama singular, sua aventura coloca à prova a verdade filosófica defendida por René Descartes: "Penso, logo existo." A figura de Robinson se soma à de outros individualistas ficcionalizados em prosa e verso, como Don Quixote, Don Juan e Fausto. Na verdade, é com os três e não com os eventuais protótipos reais que a ficção de Defoe dialoga em profundidade.

E dialoga em diferença, como afirma o crítico Ian Watt, em Ascensão do Romance (Companhia das Letras, 1990): "Por acaso a ilha oferece a Daniel Defoe a melhor oportunidade para efetivar três tendências associadas da civilização moderna - a absoluta liberdade econômica, social e intelectual para o indivíduo."

Ainda em diferença, a verdade poética dialoga com a verdade científica. Sensível aos enigmas propostos pela ficção, um cientista político descobriria as ramificações da narrativa do náufrago britânico entre as ideias sistematizadas por C. B. Macpherson no clássico A Teoria Política do Individualismo Possessivo: de Hobbes a Locke (Paz e Terra, 1979). Não é Macpherson quem detecta que a noção niveladora de liberdade apresenta implicações para o conhecimento do aspecto possessivo do indivíduo, que Hobbes negligencia? Em teoria econômica, as robinsonnades são postas abaixo por Karl Marx nos Grundrisse (1858).

Em diferença, finalmente, é que a prosa de Defoe dialoga com um náufrago contemporâneo nosso. Em 1924, o jovem Carlos Drummond escreve a Mário de Andrade: "Nasci em Minas, quando devera nascer (não veja cabotinismo nesta confissão, peço-lhe!) em Paris. O meio em que vivo me é estranho: sou um exilado." A experiência do naufrágio em Itabira está descrita no poema Infância (1930): "Meu pai montava a cavalo, ia para o campo. / Minha mãe ficava sentada cosendo. / Meu irmão pequeno dormia. / Eu sozinho menino entre mangueiras / lia a comprida história de Robinson Crusoé." Os náufragos se confundem na aventura da leitura. Entre mangueiras, Robinson ajuda o menino solitário a melhor se conhecer a si mesmo. Emerge um futuro e singular universo poético.

Ao sair em busca da verdade poética o artista cria o real. Em leitura da obra de Marcel Proust (Cosac Naify, 2003), Samuel Beckett sublinha o momento em que o homem mundano se assumiu como artista. Beckett cita então uma frase de Francesco de Sanctis, historiador da literatura: "Chi no la forza di uccidere la realtà non ha la forza di crearla" (Quem não tem a força de matar a realidade não tem a força de criá-la).

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