Na vida e na arte o amor

Documentário revela as dificuldades de convívio e a intensidade da parceria em filmagens famosas

LUIZ ZANIN ORICCHIO, O Estado de S.Paulo

14 de dezembro de 2012 | 02h09

Liv Ullmann e Ingmar Bergman passaram juntos a vida, ou apenas alguns anos? Depende do ponto de vista. O casamento não durou tanto, embora tenha deixado uma filha, Linn. Já a colaboração artística vai de Persona (1966) a Saraband (2003), canto do cisne do mestre, que morreria em 2007. Nada menos de 37 anos! Quase quatro décadas, que acompanharam as mutações de um dos maiores cineastas de todos os tempos. Com exceção da sua primeira fase, Liv acompanha Bergman ao longo de toda a sua evolução como cineasta, da exasperação artística e existencial dos anos 60 à calma melancólica dos últimos trabalhos. Em especial Saraband, reencontro da agora envelhecida dupla de Cenas de Um Casamento, Liv e Erland Josephson.

Da união real, ficamos sabendo pelo filme de Dheeraj Akolkar que não se deu sem tumultos. Muito pelo contrário. Liv lembra-se de que trabalhou com Bergman em Persona, e voltou grávida para a Noruega. Bergman pediu-lhe que viesse viver com ele. Liv hesitava. Era jovem, tinha 28 anos, e Ingmar, 48. Vinte anos de diferença. Ele propôs um filme, Os Canibais, e, sedutor, falou: "Se não quer viver comigo, vamos pelo menos trabalhar juntos". Ela não resistiu ao canto de sereia e saiu de sua ilha em direção à Suécia. Para filmar Os Canibais, agora rebatizado de A Hora do Lobo. E para viver com Bergman.

Na entrevista, Liv se recorda de que a vida diária com Bergman nada tinha de fácil, embora estivesse completamente apaixonada por ele. A começar pelas filmagens de A Hora do Lobo, talvez o filme mais assustador assinado por Bergman. Não seria exagerado defini-lo como um radical horror movie, com seus personagens principais, Johan (Max Von Sydow) e sua esposa grávida, Alma (Liv), retirados em uma ilha. No isolamento, Johan é atormentado por fantasmas e demônios do seu passado, que assumem um ar assustadoramente real. "Talvez não fosse o melhor papel para ser interpretado por uma mulher grávida de seu primeiro filho", considera Liv, em outra entrevista.

De qualquer forma, aterrorizada ou não, Liv sente-se em perfeita sintonia com a assustada Alma. Essa "crueldade" talvez fosse a percepção de Bergman de que a arte por vezes exige uma certa rudeza e não se conforma aos bons modos. "Queimar os móveis da casa para manter a sala aquecida para a modelo", conforme a conhecida metáfora de Freud sobre os inevitáveis sacrifícios exigidos pela arte. A obra compensa tudo e pauta-se por outra ordem de consideração que não a moral ordinária do dia a dia.

De outra filmagem - a de Vergonha - de novo ambientada em uma ilha, desta vez visitada não por fantasmas e demônios, mas por refugiados de guerra, Liv também guarda a lembrança de dificuldades. "Max Von Sydow e eu interpretávamos em um barco, no gélido mar do inverno sueco, tremendo de frio com poucas roupas. De outro barco, Bergman com sua câmera nos filmava, muitíssimo bem agasalhado!", lembra, com o humor que permite a distância no tempo.

O problema não era apenas as condições radicais de filmagem de um diretor muito rigoroso. Entre um trabalho e outro, Bergman gostava de ficar em sua casa em Farö, isolado do mundo, pensando em roteiros cada vez mais complexos. Liv sentia nostalgia da vida social. De alguma vida social, pelo menos. Bergman trancava-se em seu escritório, pensava, escrevia e ouvia música clássica, enquanto a mulher se sentia solitária, em companhia apenas de um cãozinho que trouxera da Noruega e do qual Bergman tentara em vão se livrar.

As palavras de Liv não soam como queixas ao longo do documentário. São apenas constatação das dificuldades de viver com um gênio que precisa da solidão como de um alimento básico para poder criar. Além disso, a hoje madura Liv Ullmann é bem consciente dos seus sentimentos de outrora. "Eu estava completamente em paz, grávida de um homem que eu amava." Mas acrescenta: "Deveria ter aprendido a lição de A Hora do Lobo, a de que quando você convive com alguém que não está em paz consigo mesmo, pode ter também a sua paz roubada". Não devia ser fácil mesmo.

Mas o fato é que a ligação entre os dois se estabeleceu por toda a vida. Mesmo depois de separados, continuaram a se falar com frequência e a se ver sempre que possível. E, claro, a trabalhar juntos. Liv Ullmann, apesar de ter atuado sob direção de outros cineastas, e ter dirigido ela mesma os próprios filmes, sabia que a ligação artística com Bergman era um privilégio e tanto. Da parte dele, Bergman era consciente de que havia encontrado uma parceira preciosa, cujo rosto se amoldava com perfeição ao turbilhão de sentimentos contraditórios que desejava expressar. E que também se submetia sem pestanejar aos seus desejos. "Bergman tolerava pouca improvisação", diz Liv. Exigia submissão total. Tanto que ficou famoso o bastidor da filmagem de Sonata de Outono, no qual a veterana Ingrid Bergman interpreta a mãe concertista de Liv. Ingrid não gosta de um diálogo e diz que não vai dizê-lo. E ponto. Ingmar teve de engolir e aceitar. "Nunca vi isso num set de Bergman", recorda Liv.

Portanto, toda vez que se falar sobre este belo Liv & Ingmar será preciso lembrar a frase de Bergman que define a relação artística mantida com Liv. Ela se queixa a ele de que, a cada vez que dá uma entrevista, não fala de si mesma e sim dele, Bergman. O cineasta a conforta: "Não se preocupe com isso, você sempre foi o meu Stradivarius". O instrumento perfeito, que vibra todas as emoções sentidas pelo mestre, das intensas às mais sutis.

Liv & Ingmar - Uma História de Amor, de Dheeraj Akolkar, tem desses momentos de emoção genuína. É bom ouvir Liv porque se trata de uma pessoa franca, madura e serena, que procura reviver as coisas como elas de fato foram, e não de maneira idealizada. Havia a dureza da vida a dois, que não pôde ser suportada por muito tempo, pois não se pode atribuir a Bergman um temperamento dócil. E, depois, a exigência da parceria artística, também muito intensa e árdua, porém, recompensadora. Liv sabe que entra para a história do cinema como a atriz preferida de um dos maiores mestres dessa arte. Não é pouca coisa, não.

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