Na verdade, Calígula somos todos nós

Meu primeiro contato com Calígula de Camus foi pelo convite de Gabriel Villela para viver o protagonista da montagem dirigida por ele, que estreou em São Paulo no fim de 2008. Antes disso eu só conhecia o personagem histórico e o filme do fim dos anos 70. É bom lembrar que a peça não tem uma pretensão biográfica: sua trama de ideias se vale do mito criado em torno do personagem.

Thiago Lacerda, O Estado de S.Paulo

08 de fevereiro de 2011 | 00h00

Camus lança no palco uma figura absoluta em todos os sentidos: o imperador romano, ser de poder absoluto, excentricidades absolutas, que não conhece limites; comanda a vida religiosa, política e militar. É muito difícil, nos dias de hoje, compreendermos esse conceito. O mundo contemporâneo não tem a vivência direta do poder absoluto - à exceção, talvez, da ditadura na Coreia do Norte. A monarquia de hoje tem um poder simbólico e o absolutismo mais próximo de nós talvez seja aquele que a Revolução Francesa exterminou. A genialidade de Camus é resgatar esse viés e aplicar os seus efeitos à natureza humana.

Na verdade, Calígula somos todos nós. A peça destaca aquela expressão individual do pequeno, médio ou grande poder - quando o exercemos no dia a dia. Nesse momento, está implícita uma condição Calígula. Calígula é mau? Não necessariamente. Se ele manda matar um senador, se ele se apaixona pela irmã, ou ama homens e mulheres, não é por vileza: está exercendo amplamente o poder que lhe foi conferido. É excêntrico porque a ele foi conferido o poder absoluto. Seria talvez o estado natural dos seres humanos, sem limites, até que somos moldados pelas convenções sociais, políticas, sociais, emocionais.

Há um perfume de Calígula naqueles que decidem questões macro, as que afetam milhões de pessoas. É um exercício complicado ter o poder nas mãos. Quem decide se Cesare Battisti fica no Brasil ou será extraditado? E é o poder que pode ser o do presidente da República, de um ministro do Supremo, do Barack Obama, do presidente do COI, e por aí afora, em todos os patamares da vida dos homens e mulheres. E há o Calígula em muitos momentos da vidinha de cada um, na pequena realidade individual.

A crueldade que pode ser vista em Calígula está atrelada a essa liberdade desmedida e cada um interpreta a falta de limites da forma que lhe convém ou que alcança. Claro que, na ótica do século 20, como Camus escreveu, vê-se a crueldade, inseridos como estamos na moralidade judaico-cristã, quando é imoral e condenável o sujeito se relacionar com meninos e meninas. Dois mil anos atrás, a sexualidade que a gente vê hoje como devassa estava inscrita nos costumes da época - na sua primeira experiência sexual, o jovem romano podia escolher entre meninos e meninas. Inimaginável para nós, que já diríamos "é gay", "é bissexual". Mas Calígula é gay? Não, só para os olhos de hoje, em que se qualificam as coisas em nichos estanques.

Em diversas situações nos ensaios, na construção do espetáculo, Gabriel me dizia: "Olha, esse é o Gael, brinca aí". Em alguns momentos, na busca do personagem, eu me via numa brincadeira de criança, dessa criança que existe em todos nós antes de termos os limites cristalizados, fazendo uma careta infantil, tendo uma reação infantil.

Costuma-se também associar Calígula à morte, mas vejo o oposto: uma pulsão de vida que só se revela diante da morte. Com todo poder e magnitude da ação política, religiosa, a guerra, o sexo desenfreado, Calígula está impotente - não é à toa que a peça começa com a morte da irmã Drusilla, o grande amor de sua vida: o poder absoluto se desmancha diante da morte da amada. O impulso em direção à vida só é gerado a partir da consciência da morte. Camus escolhe Calígula como o retrato do homem diante da finitude, da morte;explora o tema que move o Existencialismo - nada faz sentido diante do fim. Calígula não veio por acaso no contexto criativo e filosófico dos anos 30 e 40. O personagem, diante da morte da amada, tem a consciência da finitude e busca desesperadamente razões e porquês. Por isso atravessa a peça buscando a Lua, metáfora da mulher, do feminino, representação da mãe, da fêmea.

Mas toda essa racionalização é do artista que pesquisa seu personagem. Para o público, isso não importa. O resultado final da comunicação nessa história é um produto muito poderoso e a plateia sai contaminada pelo volume Calígula - quem gosta, quem rechaça, quem se identifica, se emociona. É impossível passar por essa experiência, estar frente a frente com a figura perturbadora que Camus recria, sem sentir impacto. Calígula é um dínamo. Tínhamos a certeza de provocar a plateia, propor que cada um refletisse, se incomodasse, se questionasse, se debatesse contra aquilo que estava vendo; Camus nitidamente desejava apontar o dedo para o público e promover uma reflexão política a respeito das convenções sociais. É o importante, e é o que ele faz, e com enorme sucesso.

THIAGO LACERDA É ATOR, PROTAGONISTA DE CALÍGULA, QUE ENCERROU TEMPORADA EM DEZEMBRO APÓS DOIS ANOS E SE APRESENTARÁ EM LISBOA ESTE ANO

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