José Patrício/AE
José Patrício/AE

Na trilha dos mestres

Eles lutam para manter tradições populares, algumas já registradas em CDs e DVD

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

11 de maio de 2011 | 00h00

No documento ele é Renô Martins, mas para todo mundo que o conhece em São Luiz do Paraitinga, é Mestre Agenor. Ele próprio conta que só foi descobrir o verdadeiro nome quando, já adulto, precisou assinar um documento. "Não sei se o escrivão entendeu errado quando meu pai falou, só sei que fiquei com esse nome francês", diz o bem-humorado dono de um sítio onde ainda não chegou telefone, mas em compensação tem uma espantosa cachoeira no quintal, no bairro de Catuçaba.

Numa tarde ensolarada na região cercada de belos vales e morros que Mestre Renô recebeu, para um reforçado almoço bem brasileiro, a reportagem do Estado, o músico, produtor e pesquisador Betão Aguiar, a assessora Fernanda Couto e Mestre Paizinho. Entre um trago de cachaça ("para abrir o apetite"), bocados de farofa de pinhão, histórias da roça e ponteados na viola, os dois contaram sobre suas atividades que mantêm vivas algumas tradições populares, como moçambique e brão.

Foi atrás da pureza que ainda resta que Betão bateu nessa e em outras comunidades para realizar o projeto Mestres Navegantes - Edição São Luiz do Paraitinga. O material é composto por cinco CDs divididos por temas - Congada, Jongo, Festa do Divino, Moçambique e um que reúne Calango, Adoração, Folia de Reis e Brão - e um DVD com vídeos com vários mestres e programas de rádio em áudio. O conteúdo privilegia São Luiz do Paraitinga - cidade com a qual Betão tem ligação que vem do bisavô -, mas se estende ao Vale do Paraíba e até ao litoral - de Taubaté a Ilha Bela, de Cunha a Mogi das Cruzes.

Patrocinado pelo programa Natura Musical, o material teve tiragem de mil cópias, que servirão apenas para divulgação entre formadores de opinião, as comunidades retratadas e algumas instituições. O público em geral pode ter tudo isso de graça na internet, no site www.naturamusical.com.br/mestresnavegantes.

A ideia do website é não só proporcionar acesso irrestrito a qualquer pessoa, mas também estimular o público jovem a conhecer essas tradições e com isso contribuir para preservá-la. Mestre Paizinho, de 45 anos, de Taubaté, é um internauta adepto da ferramenta nas salas de aula e considera o projeto de Betão um avanço significativo. Ele próprio decidiu assumir o posto no grupo, quando o pai ficou doente. "Se a gente não ensinar as crianças, tudo isso que a gente está levando de bonito vai morrer com a gente", diz. "E para ensiná-las, a gente tem de falar a linguagem delas, senão não adianta."

Dos 18 grupos de moçambique só restaram 2 em Taubaté. "Agora vendo esse material na internet, o pessoal que dá muito pouco valor para o que a gente faz vai começar a enxergar o grupo com um olhar diferente, com mais respeito", acredita. "A ideia do site é excelente e pode também dar uma mexida nos órgãos públicos que fazem muito pouco. O grupo se fortaleceu."

Linha metafórica. Além dos mutirões de brão, Renô, de 73 anos, participa de cavalhadas e festas, toca viola e compõe. Observador, ele conta de casos curiosos em que coloca na roda de cantadores uma "linha", uma espécie de charada, sempre por meio de metáfora. "Uma vez teve um mutirão e eu fiquei acordado até de madrugada tirando a linha que ia colocar", conta Renô. "Aí veio na cabeça a ideia da cobra que estava me ameaçando, e eu com medo do bote dela. Era o asfalto que chegou a Catuçaba e estava quase me pegando."

Dos oito filhos de Mestre Renô, apenas 2 se interessam pelas festas populares, das quais Mestre Paizinho também participa em São Luiz, como a Festa do Divino. Além da evocação religiosa, essas manifestações têm relação com a vida no campo. São festas que tinham a ver com a colheita, com o sol, com o plantio, a chegada da temporada de chuva. "Essas tradições tendem a acabar porque o rural está acabando", diz Betão. "E tem grupos que também não ensinam as crianças, com isso também as tradições vão morrendo. O jongo, por exemplo, já teve em São Luiz, mas não tem mais."

Tanto é que ele só foi encontrar em Guaratinguetá. "Meu intuito é fazer em diversas linguagens para que mais pessoas sejam tocadas por esse projeto. Só ouvir o CD ou ver um vídeo não vai ter o mesmo impacto. Por isso, penso fazer também uma exposição em que a gente reproduza um ambiente desses, leve uma apresentação de um grupo, divulgue o calendário de festas deles, para quem se interessar, mas nem acho que vá ter esse impacto. Trabalhar com cultura popular é muito difícil. Até mesmo aprovar um projeto no Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), que deveria estar cuidando disso."

PARA LEMBRAR

Semana da Canção deve voltar este ano

Quase um ano e meio depois da inundação que arrasou o Centro Histórico e outras áreas na parte baixa da cidade, São Luiz do Paraitinga está se renovando. A reconstrução da Capela das Mercês já está bem avançada e tem data para a reinauguração, 24 de setembro. No mesmo mês, dos dias 12 a 18, a cidade deve receber de volta a Semana da Canção Brasileira, que foi suspensa no ano passado. "Temos a promessa do governador Geraldo Alckmin, que esteve lá no carnaval. Agora estamos procurando apoio privado", diz a cantora Suzana Salles, curadora do evento. "Vamos ocupar outros espaços e privilegiar a renovação, com artistas com Tulipa Ruiz e Danilo Moraes."

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