Na trilha de um olhar estrangeiro

Lançado na França, Heitor Villa-Lobos, de Rémi Jacobs, autor também de um trabalho sobre Mendelssohn, reconstitui, passo a passo, a trajetória da vida e a construção da obra do gênio de Bachianas e de Choros

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

09 Abril 2011 | 00h00

No finalzinho de sua vida, em julho de 1957, Villa-Lobos escreveu: "A minha obra musical é consequência imediata da minha predestinação. Se ela é em grande quantidade é porque ela é o fruto de uma terra extensa, generosa, quente e planificada. Quem nasceu no Brasil e formou sua consciência no âmago da terra deste país não pode, embora querendo, imitar o caráter e o destino de outros países, embora a sua cultura básica seja transportada do estrangeiro".

Em duas frases, assume-se como pai fundador da música brasileira, recusa influências e define-se como nacionalista. Àquela altura da vida, já desenvolvera uma impressionante mistura de meias verdades com meias mentiras que confunde até hoje todos os que se aproximam dele. Portanto, deve ter se divertido curtindo seu charuto e imaginando os estudiosos das Américas e da Europa quebrando a cabeça para construir um Villa coerente que jamais existiu.

Nem tudo são dúvidas. As últimas décadas o retiraram do posto de um dos representantes exóticos da música do século 20 e o entronizaram como um dos criadores centrais no período. Reconhece-se, por exemplo, que foi influenciado na juventude pelos franceses Franck, Fauré, Ravel e Debussy; e a fluvialidade amazônica de uma obra de altos e baixos. Juízos emitidos do ponto de vista da música europeia erudita.

Um livro recente evita algumas armadilhas, mas repete alguns clichês, em maior ou menor escala. Heitor Villa-Lobos, de Rémi Jacobs, foi lançado em Paris na coleção Horizons, da editora Bleu Nuit. Ele é profissional experiente do disco clássico formado pelo Conservatório Nacional de Paris e autor de uma ótima biografia de Mendelssohn lançada em 1977, na famosa coleção Solfèges, das Édition du Seuil (a série combinava excelentes textos com muita iconografia, em formato de bolso, de até 200 páginas). A nova biografia, em tudo semelhante às da Solfèges, é fartamente ilustrada e estuda passo a passo vida e obra, incluindo informações básicas sobre os Choros, as Bachianas Brasileiras, a música para piano, violão e camerística. E com direito a agradáveis surpresas: bons apanhados das sinfonias, dos quartetos e das óperas.

No prefácio, o embaixador do Brasil na França, José Maurício Bustani, também pianista, que solou com a Orquestra da USP no ano passado em São Paulo, escreveu que este é um retrato do "compositor, músico e pedagogo que criou uma estética original onde estão presentes todas as questões que preocuparam os artistas do Novo Mundo, impregnados da música indígena e negra e da dos colonos europeus".

Jacobs traça um paralelo inicial entre a estética e a produção musical de Villa-Lobos e a de Darius Milhaud, que viveu no Rio de Janeiro entre 1918 e 1919 como secretário do embaixador francês Paul Claudel. Em seguida, coloca Villa sempre na cola dos europeus, sobretudo Stravinski. Talvez exagere ao alçá-los a uma quase igualdade, quando o que houve foi mesmo um impacto arrebatador que a música do russo provocou no brasileiro. Na página 36, diz que o maestro brasileiro Roberto Minczuk gosta de juntar O Pássaro de Fogo com Uirapuru no mesmo concerto para "opô-los ao mesmo tempo que assinala seu parentesco". Nove páginas depois, afirma que o "Noneto é peça mais importante no exterior do que no Brasil: parente próximo de Les Noces, de Stravinski, resulta da mistura explosiva de arquétipos melódicos e rítmicos emprestados do acervo popular indígena e de fórmulas radicais saídas da concepção estilhaçada da instrumentação tal como a pratica também Webern na mesma época". Aguda a aproximação da instrumentação do Villa com a de Webern.

Abre o jogo no sexto capítulo perguntando-se retoricamente se seria obsessão a admiração de Stravinski pelo Villa. "Villa não para de admirar Stravinski, que possui a fabulosa capacidade de se renovar e criar novos espaços sonoros". Raciocina que o retorno a Bach de 1923, o Octuor e o Concerto Para Piano e Orquestra do russo "impactam o compositor brasileiro, e percebe neste caminho a possibilidade de reconfigurar sua inspiração pessoal depois de dez anos de Choros".

Talvez seu maior pecado seja levar a sério quase tudo que o Villa disse. Atribui, por exemplo, a uma inexistente generosidade do editor Max Eschig, de Paris, a publicação de suas obras (na verdade, os irmãos Guinle financiaram a edição, não ajudaram só juridicamente na elaboração do contrato de edição, como Jacobs aponta).

Pena que ele não tenha consultado o estudo-chave para se entender de modo menos vago a personalidade mitômana do Villa, escrito por Paulo Renato Guérios em 2003 (Ed. FGV, Rio). Jacobs sabe que o compositor não fez as propaladas viagens ao Norte-Nordeste catando melodias do folclore, por exemplo. Mas repete equívocos como os da correspondência com Stravinski ou a origem das Bachianas, como demonstra Guérios, e se recusa a qualificá-las como estratégia oportunista - a sua origem foi, sim, oportunista, o que não impede que o ciclo Bachianas seja obra-prima da música do século 20, um degrau abaixo dos Choros. Guérios explica isso em detalhes. Em Paris, em 1923, escreve, "extasiado" com a Sagração da Primavera, de Stravinski, Villa-Lobos alterou sutilmente as datas de várias composições como o Noneto, Uirapuru e Amazonas, de modo a fazer crer que havia uma afinidade entre ele e o compositor russo - quando o que houve foi de fato um impacto decisivo responsável por uma reviravolta em sua criação musical. "Pensando numa volta a Paris, cheira no ar o gosto neoclássico e a moda Bach (...) e trata de aproveitar a onda e embarcar nas Bachianas" para, diz Guérios, atender "às novas demandas dos meios musicais europeus".

Tais deslizes não desqualificam o livro, que em geral é de excelente nível e incorpora em pequenos quadros alguns textos que jogam luzes contemporâneas à obra do compositor (assinados por nomes com John Neschling, autor da gravação-referência dos Choros com a Osesp (selo BIS); Sonia Rubinsky, que gravou a integral para piano para a Naxos; a regente Débora Waldman e a pianista Cristina Ortiz.

Uma dica para uma eventual segunda edição: uma boa revisão a cargo de um brasileiro nativo evitaria tantos erros nos títulos das obras e em nomes (Oswaldo de Andrade, Júlio Preste, choraões, etc.).

JOÃO MARCOS COELHO É JORNALISTA E CRÍTICO MUSICAL, AUTOR DE NO CALOR DA HORA (ALGOL).

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