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Na toca, mas viajando

Na impossibilidade de sair de casa, dá saudade até de gélidas madrugadas da infância

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

21 de julho de 2020 | 03h00

Janeiro, na casa onde me criei, podia transcorrer em qualquer lugar, desde que ensolarado – estou me lembrando de Guarapari, Araxá, Ubatuba, Bertioga, Salvador –, mas nosso julho era sempre na fazenda. Não havia escolha, e ninguém reclamava. 

Quando menino, me parecia uma distância enorme a percorrer, um viajão. Só mais tarde me dei conta de que aquelas terras, compradas em 1921 pelo Dr. Hugo, o avô paterno que não cheguei a conhecer, ficavam a 14 km da Praça Sete, o umbigo de Belo Horizonte, município ao qual acabaram sendo integralmente incorporadas. Ficava tão perto que, com a família em férias, meu pai, ele igualmente Hugo, seguia todas as manhãs para o batente em seu consultório.

A sensação de lonjura que me dava tinha a ver com a progressiva piora nas condições dos caminhos sobre os quais, lotado, trafegava o nosso carro – primeiro, um Chevrolet 1939, depois uma sucessão de Kombis, única solução automobilística para um casal que se desdobrou numa dezena de crias. 

O asfalto não tardava a dar lugar ao calçamento, e este a uma estrada de terra, à qual não faltavam “costelas”, ondulações que me faziam pensar no plano inclinado de um tanque onde se esfrega a roupa. A certa altura, entrava em nosso campo de visão, à direita, vermelho desbotado, ou rosa imundo, o soturno prédio do Matadouro Municipal, soturno, a meus olhos, porque sobre ele voejava o tempo todo um teto de urubus, os primeiros seres a se interessar pela carne que, ai de nós, acabaria em nossa mesa.

A fazenda parecia longe, também, pela diferença de temperatura, no inverno muito mais baixa do que em Belo Horizonte. O frio era revoltante aos domingos, quando, nuns restos ainda escuros de madrugada, nossos pais nos acordavam para a missa das 6, a uns poucos quilômetros dali, na capela do sanatório que meu avô, médico, ex-tuberculoso, fizera construir num dos cantos da fazenda. 

Que me lembre, o hospital vivia cheio, e era por causa dos fiéis doentes, com seus insidiosos bacilos, que não podíamos ir à missa em horário menos cruel, o das 8 da manhã. 

Acho que comecei a perder a fé religiosa naquelas madrugadas em que me obrigavam a deixar o bem-bom das cobertas e seguir, em jejum, para a missa das 6. Foi lá que adquiri o direito irrevogável a uma vaga no Paraíso, não importando que pecados tenha cometido desde então, e quantos venha a cometer ainda. Estará assim compensado, espero, o sofrimento térmico que passei, com o Rodrigo e o Otávio, meus irmãos parelhos, quando nosso pai, um cavalheiro, nos mandava apear do carro e seguir a pé, cedendo a alguém de mais idade (na época, praticamente não havia quem não o fosse) três assentos ainda quentes no Chevrolet 1939.

*

Ao lado da capela havia, espectral, um necrotério. Foi assustador saber que se morria tão perto de nós. Para completar a nota lúgubre, nas proximidades da casa velha da fazenda, onde pousávamos, vi um dia o carpinteiro Bernardino arrematar um caixão com pano preto e dourado, e pespegar-lhe as alças de metal. 

Em algum momento, uma ou duas décadas adiante, o sanatório, que nunca chegou a ser um grande negócio, deixou de ao menos se pagar. Os filhos do fundador precisaram decidir então o que fazer com ele. Previsivelmente, foi mal recebida a sugestão de um de meus primos, abusado mas dono de inegável descortino comercial: por que não converter aquilo num motel? Do ponto de vista negocial, disparate não era: foi na época em que, mesmo nas recatadas Minas Gerais, começavam a pipocar esses parques de diversões sexuais. 

Em vez disso, a velha-guarda optou por vender aquele canto de fazenda, e vendeu mal, para uma congregação religiosa, que fez do sanatório uma casa de repouso, da qual não restam mais do que ruínas. Não é impossível hoje que os filhos do Dr. Hugo encarassem com isenção de ânimo a ideia do motel. Quem sabe até endossariam, mas sem ironia, a observação ácida de minha centenária bisavó Chiquinha diante dos terremotos comportamentais nos anos 60: “Viva o modernismo!”. Disso já não tinha dúvida, aliás, um camarada que conheci bem mais tarde, engenheiro responsável pelo sistema hidráulico do primeiro motel de Belo Horizonte, que por isso se fez merecedor de passe livre para deitar e rolar – do qual tratou de fazer uso frequente, de forma, explicava, a otimizar o privilégio.

Do sanatório me ficou a lembrança dos lindos tapetes compostos com casca de ovo moída e colorida, nas procissões de Corpus Christi. Dos cartuchos de confeitos que eram para a meninada, no final, o melhor daqueles cortejos enfumaçados com incenso. Da cozinha industrial da qual saía o nosso almoço, acondicionado em marmitas e transportado numa carrocinha movida a burro. Dos filmes que, alugados para entretenimento dos doentes, filávamos no dia seguinte, antes que fossem devolvidos, numa das casas da fazenda, com direito a baciadas de pipoca. Das freiras em revoada com seu hábito azul-escuro e papo branco, várias delas arrastando sotaque alemão. Do padre Luís, que, cego de olho, era para nós o padre Camões. Do padre Frederico de formidanda pança, sacerdote que um dia flagraram, para além dos limites do sanatório, escarrapachado ao sol, imerso na leitura de um livro santo, nos trajes de Adão antes da folha de parreira.

Mas veja a que pormenores cheguei, um padre pelado!, eu que lá em cima me propus rememorar férias de julho de uma família cristã. Nisso é que dá viagem de quem está proibido de sair da toca.

*

Carteirada poliglota

Por deslocada que possa parecer, caiba aqui uma palavra sobre o recente escândalo do desembargador Eduardo Siqueira, que, interpelado por um guarda-civil quando circulava no litoral de Santos sem máscara anticovid, de uso obrigatório na cidade, julgou-se no direito de humilhar quem polidamente o abordara. Soube-se então que Sua (minha é que não) Excelência era reincidente, pois em maio protagonizara episódio semelhante, igualmente registrado pela câmera de um celular. Naquela ocasião, o magistrado houve por mal achincalhar o fiscal também com uma estapafúrdia exibição de supostos conhecimentos da língua francesa. Fica a sugestão de que se avalie, tanto quanto o comportamento arrogante, a qualidade do francês do desembargador. Não custa lembrar que ninguém é ruim numa coisa só.

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