Na toca do bandido

Fomos ao estúdio-pousada construído no Rio de Janeiro pelo lendário produtor Tom Capone

Flavia Guerra do Rio, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2010 | 00h00

A viagem tinha destino certo: passar alguns dias na Toca do Bandido. "Onde mesmo? Itanhangá? É quase Rio das Pedras. Nem é tão longe, mas vamos demorar a chegar porque é mesmo meio no meio do nada", respondeu o taxista que conduziu a reportagem do Estado ao estúdio de gravação musical mais original do Brasil. Ao contrário dos costumeiros estúdios urbanos, de paredes cinzas que mais despertam a sensação de fuga do que de aconchego, encontrar uma "toca de músicos" encravada no verde denso da mata atlântica do Rio já soa como música para os ouvidos. E uma pergunta parece inevitável: por que ninguém teve essa ideia antes, de transformar todo local de gravação em algo como a Toca do Bandido, uma casa que é estúdio, um lar (lar também cinematográfico, que virou cenário do reality show Geleia do Rock, do Multishow) e uma pousada segura para músicos que procuram sossego, ar puro e não levam mais que dois minutos do quarto à cozinha e ao local de trabalho.

Ao tocar a campainha do número 2.424 da Estrada Velha de Jacarepaguá, a impressão era de um refúgio se abrir em meio ao caos urbano carioca. Bem-estar maior foi descobrir que um estúdio digno de abrigar vencedores do Grammy podia ter a cor quente da terracota, a luz acolhedora reverberando com os sons pelas madeiras de lei que sustentam suas estruturas, quadro de Nossa Senhora de Guadalupe na parede e piso de madeira "vindo diretamente de Minas", uma fortaleza confortável que faz jus ao nome de seu criador, Tom Capone.

Projeto. Tom, para quem não se lembra, é algo difícil de explicar. Mais fácil sentir a vibração que o produtor musical deixou na "casa estúdio" que construiu em 2007, quando era diretor artístico da Warner, para morar com a mulher Constança Scofield, o filho Bento e realizar trabalhos de nomes como Maria Rita, Adriana Calcanhotto, O Rappa e Érika Martins. "Ele era muito requisitado na Warner. Havia fila de artistas para gravar com ele. Então, ter a estrutura aqui facilitava", conta Constança, que hoje comanda a Toca do Bandido e o selo Toca Discos, na companhia dos sócios Rita Vilhena e Felipe Rodarte.

Era no disco-solo de Érika Martins que Tom trabalhava quando, após concorrer a cinco Grammy Latinos no dia 2 de setembro de 2004, em Los Angeles, sofreu um acidente com uma a moto. "De uma hora para outra me vi sem o Tom, com um filho de dois meses para criar (Bento, hoje com 6 anos), com a casa, o estúdio e o legado dele para preservar", relembra Constança. "Quando decidimos morar juntos, após uma viagem aos Estados Unidos (na época ele estava produzindo o "Omelete Man" de Carlinhos Brown com a Marisa Monte), coincidiu dele também querer um lugar como a Toca para trabalhar. No início, um dos quartos era estúdio. Fui empurrando tudo para longe, isolando , fechando as portas. Queria ter uma casa e não viver em um estúdio."

Constança conheceu e se apaixonou por Tom exatamente em um estúdio, em 1999, quando a banda baiana Penélope era aposta da Warner e se preparava para gravar Mi Casa, Tu Casa. Constança tocava flauta e teclado na banda. Tom era produtor do projeto e ganhou não só a admiração da banda como o coração de Constança. Quando Tom morreu, ela passou dois anos alheia ao universo musical e encontrou na criação do filho Bento a energia para continuar. Foi Érika Martins que convenceu Constança a terminar a produção do disco que havia sido interrompido. Assim nasceu o selo Toca Discos.

Portas abertas. Hoje, as portas que Constança foi fechando ao longo dos anos estão abertas para os músicos que, em vez de voltarem para casa após um dia de gravação, preferem "se entocar". "Eu, que um dia já reclamei do barulho e do movimento, hoje quero mais é ver o pessoal ir de um lado para o outro. Trabalhar, dormir e acordar aqui. Por isso, resolvi transformar a Toca neste "estúdio pousada". Há quem vem e volta no mesmo dia, mas outros ficam aqui vários dias. A Adriana Calcanhotto trazia sua guitarra e tocava à noite. A Silvia Machete, que chega amanhã cedo, vem e traz seus objetos de cena para ensaiar", explica a anfitriã e administradora da Toca..

Testemunhar a gravação madrugada adentro do Canastra, meticulosamente seguida pelo olhar carinhoso e agudo do ex-Titã Gavin, convidado para ser o produtor do projeto, é privilégio para poucos. Mas privilégio mesmo é acordar no dia seguinte, abrir a janela e saber que no andar de baixo fica a "casa noturna" da Toca do Bandido. Com "outra" Guadalupe pintada na porta pelos grafiteiros Ment, Braga, Vagner e Big, o pub revela nos detalhes os bons tempos em que Wander Wildner (banda gaúcha em que Tom atuava como produtor e também tocava baixo) animava o ambiente com rock e tequila. Mais arrepiante ainda é se deparar com a figura gigante de Tom que ilustra a fachada da Toca. Pintada pelos mesmos grafiteiros, a imagem parece atestar que Tom aprova e abençoa seu templo da música. "Quando vejo que tudo funciona, sinto a missão cumprida", diz Constança. "Num tempo em que tudo está tão saturado, é especial sentir que este lugar preserva o legado do Tom e continua vivo."

Só tem lá

Tarta, o guardião

Luciano, o Tarta, é o "guardião" da Toca. Assistente de Tom, o músico que viveu vários anos nos EUA é o anfitrião em tempo integral e foi o guia do Estado pelo complexo da Toca.

Picadeiro

A cantora Silvia Machete, que passava uma semana de "imersão" na Toca, levou sua escada e seus bambolês para melhor conceber o próximo show. Como Silvia é ás do trapézio e já rodou o mundo com suas estripulias, suas apresentações são uma experiência "multimídia".

Grammy na estante

No dia em que morreu, Tom havia concorrido a cinco Grammy Latinos: álbum do ano, produtor, engenheiro de gravação (por Maria Rita) e gravação do ano (Festa, com Maria Rita, e Dois Rios, com Skank). Tom não levou nenhum Grammy naquele ano, mas já havia ganho outros cinco em outras edições.

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