Na terra de Beethoven

Na terra de Beethoven

Jovens da favela de Heliópolis fazem hoje seu primeiro concerto fora do País, em Bonn, na Alemanha

João Luiz Sampaio, O Estado de S.Paulo

04 de outubro de 2010 | 00h00

A paisagem medieval de um final de tarde de sábado no centro de Bonn é interrompida pelo som de chorinho em torno do qual uma pequena multidão começa a se formar. Pandeiro, violão, cavaquinho... Um grupo de rapazes entoa Brasileirinho e as meninas logo esboçam alguns passos. Sim, são músicos brasileiros _ e hoje à noite voltam a se apresentar na cidade. Só que, desta vez, o palco será outro: o Beethovenhalle, onde a Orquestra Sinfônica de Heliópolis faz sua estreia internacional, dentro da programação do Festival Beethoven, que homenageia anualmente o compositor, filho da terra.

A brincadeira na praça dá a pista do clima da viagem. O momento de descontração não esconde porém a responsabilidade da viagem. A orquestra chega à Alemanha a convite da Deutsche Welle, que há dez anos realiza o Orchestra Campus, projeto que prevê a apresentação de grupos sinfônicos jovens de países fora da Europa e América do Norte. Além dos dois concertos em Bonn, os músicos vão se apresentar em Berlim, Dresden, Munique, Amsterdã e Londres (para o ano que vem, já há convites para Bélgica e Luxemburgo). O programa inclui a Sinfonia nº 8, de Beethoven, o Concerto para Violino, de Tchaikovsky (com solos de Shlomo Mintz), as Bachianas Brasileiras nº 4, de Villa-Lobos e Cidade do Sol, obra encomendada ao compositor André Mehmari para a turnê.

Veja também:

link ''Nossa ficha ainda não caiu''

O grupo de 75 músicos nascidos e criados em uma das maiores comunidades carentes do mundo, a favela de Heliópolis, chegou a Bonn na tarde de quinta. No ginásio de uma escola primária, eles foram apresentados aos seus "familiares" pela próxima semana - estão todos hospedados em residências da cidade. Gestos, um pouco de inglês, espanhol, portunhol, expressões faciais - tudo vale nas primeiras tentativas de comunicação.

Na manhã seguinte, no estúdio da Beethovenhalle, orquestra posicionada para o primeiro ensaio. "Trombones, cordas, vocês precisam se ouvir. Trompas, fagotes, atenção", pede o maestro Roberto Tibiriçá. Enquanto isso, do outro lado da cidade, na sede da Deutsche Welle, o maestro Silvio Baccarelli, criador do projeto, relembra para a imprensa local o incêndio que, em 1996, destruiu metade da favela e o fez iniciar o trabalho de educação musical. "Quem diria?", diz, os olhos se enchendo de lágrimas. "Eram 36 músicos e hoje, quase 2 mil alunos. É com muita felicidade que vejo uma orquestra formada por meninos e meninas que provavelmente não teriam oportunidade alguma de trabalhar com música em suas vidas. A arte lhes deu força para vencer qualquer desafio".

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.