Na tela, vida do pintor vai do drama ao épico

A grandiloquência persegue a cinebiografia Sede de Viver, de Vincente Minnelli, desde os primeiros minutos de seu filme - suntuoso, marcado pela trilha épica de Miklos Rozsa. É uma versão monumental, mas um tanto romântica, da tragédia que foi a vida de Van Gogh. Comparada a outras cinebiografias do artista, dirigidas por autores como Robert Altman e Maurice Pialat, a de Minnelli é convencional, mas tem como vantagem um ator (Kirk Douglas) cuja semelhança física com Van Gogh impressiona. Além disso, é uma produção (de John Houseman) que não economiza (foi filmada nos lugares onde viveu Van Gogh e tem Anthony Quinn no papel de Gauguin).

O Estado de S.Paulo

06 de dezembro de 2012 | 02h10

Há, de fato, uma tentativa de Minnelli "explicar" Van Gogh por sua filiação religiosa (seu pai era pastor), desde a primeira sequência, ambientada no final dos anos 1870, quando Van Gogh deixa a Holanda para pregar numa província de mineiros na Bélgica. Tocado pela pobreza dos trabalhadores, o pintor fica ainda mais chocado com a hipocrisia de seus colegas pastores. Persuadido pelo irmão Theo, retorna à terra natal apenas para deixar novamente a casa paterna e viver com uma prostituta em Haia. Minnelli concentra-se nos anos finais do pintor, sempre associando os fatos de sua vida às pinturas. É um recurso funcional, mas, repetido, beira o anedótico.

A linguagem melodramática de Minnelli dilui a tragédia real, recontada no livro de mesmo nome (Lust for Life, 1934) por Irving Stone (1903-1989), também biógrafo de Michelangelo (Agonia e Êxtase) e um autor dedicado a romancear a vida de famosos (Freud, Darwin, Jack London). Minnelli parte da versão de Stone para dividir a vida de Van Gogh em quatro fases, cada uma delas sintonizada com sua produção artística: a dos desenhos dos mineiros de Boringe, a das pinturas rurais de Haia, das telas impressionistas de Paris e, finalmente, a das paisagens do Sul da França no fim da vida, abusando da luz e dos efeitos visuais, numa relação quase histérica com a arte de seu biografado.

Já o filme de Maurice Pialat, Van Gogh, vai na direção contrária. É bressoniano ao extremo, beirando o ascético. Não se apega ao Van Gogh histórico, mas ao artista solitário e depressivo, incapaz de interagir com a sociedade em que vive, exceto por um ou dois eleitos - por exemplo, Marguerite, a jovem filha de seu médico, doutor Gachet, que escapa das convenções burguesas, como ele. Pialat não se interessa muito pelos fatos determinantes da vida do pintor - sua conversão, o desejo de pregar, o abandono da religião e, por fim, sua entrega ao mundano. Mostra o artista como um deslocado social, nas últimas semanas de vida, após se desentender com o irmão. Pialat fez um filme soberbo, até por ser pintor e entender o universo de seu biografado.

O norte-americano Robert Altman faria sua versão na mesma época, Van Gogh - Vida e Obra de Um Gênio (Vincent and Theo), com Tim Roth no papel-título. O foco de Altman é a relação do pintor com seu irmão Theo, que o financiou a vida toda. Ele é visto como uma espécie de duplo de Van Gogh, alguém que, apesar de estar numa situação menos desconfortável, sofre com a incompreensão de seus pares. / A.G.F.

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