Na sonata, o encontro com a excelência

Em uma edição especial, dedicada aos 200 anos de nascimento do mestre alemão, caderno destacou seu talento nesse gênero

CALDEIRA FILHO, O Estado de S.Paulo

19 de fevereiro de 2011 | 00h00

Beethoven, ao contrário de Chopin, não foi um exclusivista quanto aos meios de realização: enquanto êste escreveu só para piano, êle usou os meios correntes em sua época. Escreveu musica orquestral sinfônica, ópera, bailado, musica coral, grande variedade de musica instrumental para solos e conjuntos. Tal repertório implica necessariamente em variedade formal. Não houve, nesse campo, exclusividade, mas houve uma preferência inequívoca: a forma-sonata foi, para Beethoven, a expressão por excelencia. Revestiu-a das solenes cores orquestrais na sua musica sinfonica: realizou-a ao teclado, pela percussão expressiva do piano ainda imaturo em seu tempo, na série imortal das 32 Sonatas, nos Concertos; fê-la modeladora da sua musica de camara, trios, quartetos etc.; e nas aproximações entre instrumentos (...) é ainda a forma-sonata que formalmente os solidariza. Na obra pianística, em particular, três grupos avultam: as Sonatas, os Concertos e as Variações, acrescidos da parte de piano em produção de camara. (...)

O piano da época de Beethoven estava ao término de uma fase que hoje pode ser considerada experimental. Da aplicação de martelos aos "saltarelli" do cravo por Bartolomeu Cristofori (1711), surgiu um instrumento capaz de tocar "col piano e col forte", processo expressivo impossível ao cravo. O novo instrumento, além de permitir gradações de intensidade, realizava as transições entre elas, o que é a alma da expressão musical. Tal se obtinha mediante variedade de "toucher" (toque), do que resultava todo um novo quadro expressivo: a sonoridade. Quanto à mecanica, sôbre que repousa grande parte das possibilidades de colorido, e à extensão do teclado, de que resulta aproveitamento de maior tessitura, continuaram e aperfeiçoaram o instrumento original diversos fabricantes (...). Todavia, o grande progresso em amplitude expressiva ocorreu pouco antes da morte de Beethoven: o escapamento duplo introduzido por Sebastien Erard em 1823 (...). Beethoven conheceu instrumentos bons, mas distantes ainda da perfeição futura que suas obras, mormente as ultimas, já estavam a exigir e para algumas das quais - a Sonata op. 111, por exemplo - o progresso atual do instrumento parece ainda insuficiente. Duas coisas surpreendem nesta obra: de um lado, a audácia da escrita para um instrumento incapaz ainda de realizá-la em tôda a sua plenitude estética; de outro, a prodigiosa audição mental - surdez completa nos ultimos anos - que lhe permitia conceber a construção sonora, imaginar-lhe os pormenores e, dentre êstes, selecionar com espírito não somente critico mas, e principalmente, estético, os efeitos instrumentais desejados.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.